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Seth - It's A Good Life if You Don't Weaken

Este post foi escrito pela autora convidada, Twiggy, o cãozinho, que devido à sua popularidade e a pedidos de muitas famílias, volta a presentear-nos com esta resenha.

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It's a Good Life if You Don't Weaken é uma graphic novel de Seth publicada em 1996, cujo a tradução directa resulta em qualquer coisa como "Seria um bom livro se não fosse uma SECA". Sim, nem tenho qualquer pudor em dizê-lo, mesmo sendo daquelas "obras" altamente consagradas e premiadas, editada pela Drawn & Quarterly e tudo, ainda com não-sei-quantas edições em diferentes línguas.
Isso, no entanto, não impede que seja este um livro narcisista, egocêntrico e consequentemente desinteressante, mesmo que tenha tudo para ser o contrário. 
A Joana disse-me: "contextualiza!" e eu respondo, como assim? Contextualizar, em que sentido? Temporalmente? Porque até isso é dúbio: esta novela gráfica, autobiográfica, é passada nos anos 80, narrada, desenhada e escrita por um tipo que se veste como se vivesse nos anos 40. O livro resulta numa série de observações e reflexões saudosistas desse mesmo tipo, que partem geralmente de reflexões sobre ele mesmo, ou sobre a memória e vida dele.
Se este livro falasse, diria qualquer coisa como: "Eu, eu e eu, sobre mim, comigo e para mim". 

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Novamente, a Joana revira os olhos e diz-me: "Mas olha que ele fala muito mais do que sobre si mesmo; isso é que é a autobiografia: partes de ti, da tua memória, da tua interioridade, para falares de assuntos ou temas globais. O Seth liga todo esse saudosismo, memórias de infância e paixão pela Banda Desenhada à busca pelo passado de Kalloway, um ilustrador canadiano que ele descobre em revistas antigas da New Yorker. O livro é interessante porque é sobre isso mesmo: o tempo! Estamos a falar dum personagem que é obcecado com a passagem do tempo e faz de tudo para congelá-lo: o Kalloway, mais do que uma referência ou role-model, materializa essa era passada que facilmente está a ficar esquecida com a passagem dos anos. Ao tentar resgatar a obra e a existência de Kalloway, Seth está simultâneamente a tentar manter esse passado vivo, que vai muito para lá do gosto dele por ilustração ou banda desenhada.
E depois? Porque é que isso é interessante? Quem é que, nos dias de hoje, tem paciência para mais um homem branco a queixar-se das suas crises de meia idade? Isto sim é que é contextualizar! A única coisa que me deu alguma motivação para levar esta leitura até ao fim foi o facto de Chester Brown ser um personagem, e isso até é giro. Melhor, mais do que uma personagem, Brown é o side kick silencioso e introspectivo, o equivalente à amiga inteligente e consciente das protagonistas das comédias românticas. Só que, neste caso, o único love interest de Seth é deixado de lado sem qualquer futuro, uma vez que essa rapariga simboliza tudo aquilo que Seth está a tentar fugir: o futuro! 
De resto, esta narrativa, que se apresenta num formato de banda desenhada, bem podia prescindir das imagens. Seth é um excelente artesão de palavras, mas os desenhos são completamente dispensáveis: não por não serem maus, mas são apenas ilustrações directas daquilo que ele está a dizer ou interiorizar. Só que, ao contrário do que acontece na obra do amigo dele, Chester 'Chet' Brown, não têm interioridade nenhuma. São completamente herméticos, opacos. E quando chegamos ao fim do livro e enfrentamos algumas reproduções do trabalho gráfico de Kalloway, os desenhos de Seth ainda ficam mais indiferentes. E quando disse isto, a Joana voltou a rematar que:

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"Isso não é bem verdade; se reparares, a maior parte das vinhetas mostram Seth a vaguear de um lado para o outro: seja em Toronto, seja na vila natal da sua infância, que é a mesma onde Kalloway viveu, como vimos a saber mais à frente no livro. De certa forma, é uma montagem bonita: enquanto ele vagueia por ruas vazias, cheias de neve, aparentemente descaracterizadas e "abandonadas" de vida e movimento, o protagonista reflecte sobre as mais primárias dúvidas existências: o que é que eu estou aqui a fazer? O que é que eu estou a fazer da minha vida? E, acima de tudo, o esquecimento colectivo de Kalloway e da sua obra fazem-no colocar a maior questão de todas: Se esta pessoa, de talento, valor e excepcionalidade foi esquecida, o que é que vai acontecer a mim? E se isto for tudo em vão? Sim, Twiggy, ele bem podia ter dito isto tudo em palavras, sem precisar de desenhar ou fazer uma banda desenhada, mas consegues agora calcular o peso dessas ruas vazias, do contraste entre Toronto e o subúrbio, em conjunto com estas palavras?"
E se a Joana tiver razão e seguirmos essa linha de pensamento, It's A Good Life If You Don't Weaken só pode, de facto, existir enquanto Banda Desenhada: que medium seria capaz de reproduzir de uma forma tão simples e directa o tempo fragmentado, como a banda desenhada? 
A Banda Desenhada é bonita mas frustrante mesmo por isso: queremos dar a entender aos leitores que existe uma cronologia contínua a decorrer, mas não podemos obrigrá-los a experiênciar essa passagem de tempo da mesma maneira, de todas as vezes, e como queremos. O tempo é completamente relativo. As vinhetas, em sequência, simulam essa passagem do tempo e simultâneamente dividem-no, fragmentam-no. É um paradigma que, numa histórias como esta, torna-se muito vantajoso.
Só mesmo com um desenho ou uma imagem estática o autor consegue reproduzir duma forma pictórica, para além de verbal, a cristalização sensorial num fragmento de tempo. É a materialização da memória, que pode ser visitada à velocidade de cada um. É como rever fotografias antigas e viajar no tempo. 
É injusto dizer que os desenhos são insgnificantes, uma vez que aqui é bastante óbvio que têm o seu próprio significado, que entra em concordância ou conflito com o que está escrito."

Mas, embora discordemos em muita coisa, tanto eu como a Joana nos propusemos a ler este livro outra vez. Pode ser que ainda hajam mais coisas para dizer depois disso.

Até lá, fico à espera da vossa opinião!

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Twiggy (2007) é um cãozinho às pintas preto e branco, mas não é Dálmata. Criada na Ericeira, gosta muito de petiscar, comer e lanchar. Quando era cachorra, ficou conhecida no bairro por tentar caçar pombos na praça. Porém, nunca conseguiu caçar nenhum. 
Considerada fisicamente demasiado pequena dentro da sua ninhada, desde muito jovem que Twiggy lutou, ladrou e saltou pelo seu direito à ladração e opinião, ladrando, pelo menos, 2h seguidas por dia - muitas vezes de madrugada. Apenas com 3 anos de idade, foi promovida ao lugar do Sofá, na Sala da Televisão. Hoje em dia, é caçadora de moscas, lagartixas e outros animais pequenos que ousam invadir o seu domínio. A sua obra, símbolo da resistência e preserverança  da identidade canina, ainda pode ser presenciada na série de móveis, peças de roupa, e até electrodomésticos roídos ao longo destes últimos 12 anos.

Comentários

MMMNNNRRRG disse…
arf arf arf!
viva twiggy, melhor colaborador deste blogue!

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