Avançar para o conteúdo principal

Grilo Falante #7 - Patrícia Furtado

A convidada de hoje é ilustradora e conseguem ver as suas ilustrações em diversos formatos, plataformas, para diferentes públicos e idades. Hoje, Patrícia Furtado escreve-nos sobre um livro de banda desenhada. Aqui seguem as suas palavras sobre Jim Henson's Tale of Sand.




Tenho uma maneira muito particular de apreciar banda desenhada e, confesso, ainda não li alguns dos meus livros preferidos. Coleciono-os, namoro-os, demoro-me a folheá-los, examino as páginas, as imagens, as cores, guardo-os e volto a tirá-los da prateleira. Eventualmente, também os leio, do princípio ao fim. Com tempo.
Não é que desvalorize o argumento em relação à arte, afinal aqueles desenhos estão ali porque foram primeiro escritos daquele modo. Mas, por alguma razão, gosto de os saborear assim, de modo fragmentado, como um filme que apanhamos várias vezes a meio, até ao dia em que o vemos todo, de uma assentada.

Isto para dizer que, quando a Mosi me pediu para falar de um livro, pensei logo no maravilhoso “Jim Henson’s Tale of Sand”, que revisito com alguma regularidade para me inspirar na incrível arte do Ramón Pérez. Depois lembrei-me de que talvez fosse melhor começar por... ler o livro.

Mas já lá vamos. Primeiro uma pequena história. 

Em 2009, a Kingpin editou um livro com os webcomics «Sin Título»  de Cameron Stewart, «Abominable Charles Christopher» de Karl Kershl e o «Kukuburi» , de Ramón K. Pérez, e convidou os três autores canadianos para o virem apresentar ao Amadora BD.

Na altura, eu seguia religiosamente o «Butternut Squash», o webcomic autobiográfico também desenhado por Pérez, mas como sou completamente distraída, não reparei que estava perante o mesmo autor até ao momento em que pensei “Aquele tipo é mesmo parecido com o boneco do Butternut. Que coincidência, até tem o mesmo nome.” Enfim...

Voltando ao Tale of Sand, é uma novela gráfica baseada num guião para cinema desenvolvido por Jim Henson e o seu habitual parceiro de escrita Jerry Juhl, entre 67 e 74. Durante esse tempo, o guião viu três versões diferentes, mas Juhl e Henson nunca conseguiram quem financiasse a longa-metragem, e o projecto ficou engavetado, até ser descoberto por um arquivista 40 anos depois.
É compreensível que ninguém tenha querido pegar nesta história delirante para cinema, ainda mais nos anos 70, em que o CGI não estava lá para dar uma mãozinha. Mesmo nos dias de hoje, BD parece um meio muito mais adequado a uma história tão demente e surreal. 

Mac, o personagem central, é arrancado de uma festa e forçado a atravessar o deserto numa espécie de corrida de obstáculos / perseguição furiosa, em que os objectos que leva na mochila que lhe puseram às costas conjuram snipers, leões, ratoeiras, piscinas com tubarões, stands de automóveis, hordas de árabes, equipas de futebol americano, índios, manadas de bisontes, tanques de guerra, camiões de nitroglicerina, e um punhado de personagens bizarras recorrentes.


Ramón K. Pérez foi escolhido entre vários artistas que fizeram páginas de teste e a sua interpretação do guião é incrível.
As cores de Ian Herring, com direcção de Pérez, também contribuem muito para o meu amor a este livro. Entre sequências de cor plana e paletas limitadas, há páginas completamente psicadélicas, vinhetas inteiras em aguarela e imagens do guião original a pontuar os fundos em jeito de homenagem. De algum modo, tudo faz sentido e contribui para a leitura. E embora o diálogo acabe por ser muito pouco, o lettering também foi alvo de muita atenção, tendo sido criada uma fonte a partir da letra do próprio Jim Henson.


Passei muito tempo a maravilhar-me com o ritmo imparável de cada página, todas tão cheias de detalhe e acção, repletas de pequenos pormenores para descobrir (como um cameo de Henson e Juhl), enquanto imaginava que, no dia em que finalmente me decidisse a ler a história, tudo aquilo faria sentido.

Não faz, nem por isso. Talvez haja uma mensagem mais profunda por trás de toda aquela parafernália, uma metáfora sobre a vida e os obstáculos que colocamos a nós próprios, mas a mim parece-me só um enorme sonho surreal. 
Continua a ser um dos meus livros preferidos.





Image result for patricia furtadoNascida em Lisboa em 1977, Patrícia Furtado desde muito nova, era uma "nerd" de quatro olhos bastante opiniosa. Formada em Design de Comunicação, trabalhou por um ano num estúdio de design, antes de se mudar para Londres, onde desenvolveu projetos para clientes como PepsiCo e Haagen Dazs.

De regresso a Lisboa, fez uma temporada no The Lisbon Studio e concentrou-se na ilustração editorial e infantil. Publicou dois livros de receitas, ilustrou romances de Valter Hugo Mãe, Alice Vieira e Nuno Markl, entre outros. Começou recentemente a publicar um webcomic sobre ter 40 anos, e tem muitos projetos para o pouco tempo que tem para eles.

Comentários

Anónimo disse…
please bring back twiggy!

Mensagens populares deste blogue

My Lesbian Experience With Loneliness

Há umas semanas atrás, visitei Coimbra e fui conhecer a Dr. Kartoon, uma livraria especializada em Banda Desenhada. Trouxe de lá dois livros, o Amitié Etroite do Vivés e o My Lesbian Experience With Loneliness, a nova manga autobiográfica de Kabi Nagata. Relativamente à autora, não conhecia nada dela. A razão pela qual decidi comprar o livro, sem quase hesitação, foi porque já tinha ouvido falar dele pelas redes sociais, por ser um tópico sensível e facilmente polémico e que, segundo várias fontes e de acordo com o que lia, era um livro que oferecia uma abordagem muito verdadeira e necessária ao que era falado.
Dessa forma, há duas coisas a separar logo à partida quando for falar deste livro - como há quase sempre, em qualquer livro que falei até agora. E quem diz duas coisas, podem ser mais... MAS, neste caso específico, há o tema, a história e a narrativa e há a sua adaptação a banda desenhada, tendo em conta esse medium em si.
My Lesbian Experience With Loneliness é uma narrativa a…

Grilo Falante #5 - André Pereira

No ano passado, eu e o André fomos ao festival de banda desenhada norte americano Small Press Expo, onde partilhámos uma banca e eu dirigi um workshop. No meio disso, conhecemos pessoalmente a Ivy Atoms, que é a autora do livro que o André escolheu para esta rubrica.


Comecei a pôr likes nos desenhos da Ivy Atoms em 2012; tropecei nela por acaso, acho que no Tumblr,  onde lhe fiz follow imediatamente; dali segui-a até umas outras quantas redes sociais, onde ainda hoje a acompanho.
Impedido pelo Oceano Atlântico de viajar até à costa Oeste americana para folhear em pessoa os zines com que a Ivy ia enchendo bancas em pequenos eventos de edição independente, convenções de anime e encontros de furries, e incapaz de cobrir o preço de transporte exigido para a importação da mercadoria para a Europa, fui acompanhando, do meu galinheiro digital, o desfile de meninas-mágicas e cadelinhas chorosas que a Ivy ia despejando nos seus murais, a par com umas bonecas de edição limitada que, compradas a…