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Grilo Falante #5 - André Pereira

No ano passado, eu e o André fomos ao festival de banda desenhada norte americano Small Press Expo, onde partilhámos uma banca e eu dirigi um workshop. No meio disso, conhecemos pessoalmente a Ivy Atoms, que é a autora do livro que o André escolheu para esta rubrica.



Comecei a pôr likes nos desenhos da Ivy Atoms em 2012; tropecei nela por acaso, acho que no Tumblr,  onde lhe fiz follow imediatamente; dali segui-a até umas outras quantas redes sociais, onde ainda hoje a acompanho.

Impedido pelo Oceano Atlântico de viajar até à costa Oeste americana para folhear em pessoa os zines com que a Ivy ia enchendo bancas em pequenos eventos de edição independente, convenções de anime e encontros de furries, e incapaz de cobrir o preço de transporte exigido para a importação da mercadoria para a Europa, fui acompanhando, do meu galinheiro digital, o desfile de meninas-mágicas e cadelinhas chorosas que a Ivy ia despejando nos seus murais, a par com umas bonecas de edição limitada que, compradas aqui e ali, ia integrando na sua oeuvre das mais diversas maneiras.


Seis anos depois, a situação muda um pouco de figura: a Ivy já não está a publicar só por conta própria e em 2018 lançou Pinky & Pepper Forever pela Silver Sprocket, uma livraria norte-americana, sediada em S. Francisco, que promove a auto-edição e oferece as suas estantes e paredes a umas quantas cartas fora do baralho que queiram expor material. Ocasionalmente, saca uns cobres do bolso para financiar publicações de maior fôlego e fazê-las chegar mais facilmente à mão invisível do Mercado.

Pinky & Pepper Forever narra a paixão assolapada entre duas cadelinhas antropomórficas lésbicas, de 22 e 21 anos respectivamente, a primeira a estudar Novos Media e a segunda a cursar História da Arte. A história inicia-se com a descida literal de Pepper ao inferno em busca de Pinky, que se suicidou recentemente; o reencontro com a namorada (não “colega de casa”, como faz questão de repetir à mãe, por telefone) não se faz tardar e é celebrado logo na segunda página com um jantar à luz das velas, no qual as duas põem a conversa em dia enquanto se vão servindo de mãos serradas de fresco aos cadáveres que flutuam pelo rio Estige abaixo e que, convenientemente,  passa mesmo no meio do restaurante. É durante a refeição que as respostas de Pinky às dúvidas de Pepper sobre o curso dos acontecimentos nos transportam seis meses para o passado, onde decorre grande parte deste livro, antes de regressar novamente aos nove círculos para a conclusão da novela.


Ao longo do flashback, a história desenrola-se em vários episódios da vida quotidiana das estudantes, com especial enfoque nas apresentações de projectos que cada uma tem de fazer nas cadeiras nucleares dos seus respectivos cursos. É através desses trabalhos que rapidamente começamos a descortinar o quão intenso (e talvez obsessivo) é o relacionamento das moças: os retratos e performances que cada uma apresenta individualmente não enganam ninguém e, tal como aponta sobranceiramente um colega de turma de Pepper, as artes “são sempre sobre a tua namorada”. Já voltamos a este ponto.

Descrito em linhas gerais, a história tem uma roupagem familiar: a revolta da(s) artista(s) incompreendida(s) e a sua falta de pachorra para aturar as básicas com quem, infelizmente, tem de partilhar o ar que respira (no planeta em geral e na faculdade de belas-artes em particular) já foi explorada até à tipificação noutros meios. A Ivy ter-se-à banhado nessas referências para escrever o livro, mas eleva-as para lá da banalidade através da franqueza com que relata os retorcidos episódios domésticos de Pinky e Pepper e da forma como pinta as idiossincrasias das personagens e as coloca em primeiro plano em relação à história, sem se preocupar com grandes chave de leitura: a janela construída pela autora para enquadrar o quotidiano do casal é martelada um bocado à bruta e aplicada sem envernizar a narrativa com uma pinga de nuance, dedicando-se antes o trabalho de minúcia à caracterização individual das personagens. 

É nesse trabalho de pormenor que a devoção da autora pelas figuras que desenha é mais evidente: o detalhe dado às roupas e acessórios com que a Ivy caracteriza epidermicamente as personagens sugere, pelo grau de atenção, dimensões emocionais mais complexas de Pinky e Pepper. O desfile de itens num contexto doméstico ajuda a verter nas páginas do livro uma intimidade próxima da de um vídeo de bedroom pop, mas com a vulnerabilidade combativa de umas Jack Off Jill em versão desenho animado. Os adereços em Pinky and Pepper Forever são sempre fragmentos materializados da personalidade das protagonistas, isolados e postos em evidência para mais imediatamente as apresentar ao leitor. 

A anarquia gráfica com que esses adereços são postos a desfilar ao longo do livro contribui muito para o entusiasmo na leitura: Ivy Atoms parece riscar frequentemente com o que quer que esteja mais à mão, desenhando a tinta, a lápis-de-cor, pintando com guache, com aguarela e em digital ou fazendo esculturas, que fotografa, imprime e cola em várias partes do livro. A selvajaria no desenho não se fica pelas figuras e estende-se aos dispositivos narrativos próprios da banda desenhada, com a Ivy a fazer avançar a história saltando sem dificuldades entre grelhas de vinhetas convencionais, passando para interfaces de telemóvel e depois para pinturas de página dupla.


Não acho que seja uma coincidência que, tal como as protagonistas da sua história, também a Ivy pareça pouco interessada nas subtilezas conceptuais da produção artística e passe logo à acção para poder comprazer-se, imediatamente e sem subterfúgios, com a representação dos objectos do seu desejo. 

Os mais evidentes desses objectos são as cadelinhas propriamente ditas, desenhadas à semelhança de umas bonecas da linha Pinkie Cooper Jet Set Dolls, criada e fabricada pela mesma empresa das bonecas Bratz, e que revelou ser um monumental fiasco (props à Carta Monir por ter evidenciado o este paralelismo na resenha que escreveu para o The Comics Journal, sem a qual este aspecto me teria passado ao lado). A consciência de que estas personagens transbordam de alguma forma para o nosso mundo intensifica um formigueiro de desconfiança que já se sentia em relação ao traçar da fronteira entre a realidade e a ficção neste livro, que se vai esfumando ao longo da leitura. Para isso contribui também a quantidade de cromos da história da arte que, só porque sim, a Ivy cita ao atropelo no decurso do livro, apropriando-se profanamente deles para os re-contextualizar no seu universo de bichinhos engraçados. 


Pinky and Pepper Forever massacra alegremente uma série de convenções do desenho bonitinho e está-se pouco lixando para a história da carochinha com princípio, meio e fim. Está, isso sim, interessado na(s) Carochinha(s) propriamente dita(s) e alicia o leitor a libertar-se da mesma forma que elas: banhando-se no fogo daquele folclórico inferno, que não dói nada se já se sair do plano mortal com um certo andamento. 

Acho que a grande força do livro é conseguir partilhar com o leitor objectos de desejo (da autora, das personagens) sem nunca convidar, nesse gesto, à sua fetichização; não há perversão, só intimidade. A vida destas raparigas algo ensimesmadas é-nos apresentada não pelo buraco da fechadura, mas com a porta desafiadoramente escancarada; o cabedal não se tira do armário pontualmente para dar largas a um kink envergonhado, mas faz parte da indumentária do dia-a-dia com que se vai para o trabalho e se vive a rotina de casal.

Pelas mais diversas razões, há momentos em que sinto a vontade de desenhar esmorecer; frequentemente, é por causa de prazos, mas acontece também pela mera obrigação do “ter de desenhar”. Suspeito que a Ivy se está nas tintas para esse estado de espírito: a frontalidade com que se abre ao leitor nos seus livros e zines é desarmante. Os desenhos dela infectam-me com anticorpos capazes de travar qualquer tipo de letargia. Lê-la contagia-me com a energia com que ela risca sem parar os temas que lhe são caros e desinibe-me da culpa católica que por vezes me levam à procrastinação. Que esta poderosa panaceia venha na forma de uma história de funny animals é só a cereja no topo do bolo.


André Pereira [n. 1987] é mestre em arquitectura desde 2010 e autor de BD desde 2012.
É membro fundador do Clube do Inferno e associado da Chili Com Carne; lançou uma data de zines com a primeira e publicou uma história sobre póneis a viver nos subúrbios com a segunda (além da antologia QCDI #3000 (2015), que publicaram em conjunto). Gosta de desenhar bichinhos giros, tendo-se estreado nessas lides colaborando no Super Pig: O Impaciente Inglês, para a Kingpin Books (2013), com quem depois publicou Safe Place (2014). Mais recentemente, publicou pela Polvo a mini-série de seis números Madoka Machina (2016-18), onde narra a história de uma tríade de furries precários a fazer pela vida. Em Maio sairá, pela associação Ao Norte, um livro sobre o filme da sua vida: O Sangue (1986), de Pedro Costa.

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