Friday, December 2, 2016

Very Much Typical Portuguese Post

Infelizmente, este post que vem quebrar o grande silêncio de 2 meses que sofreu este blog, não tem praticamente nada haver com BD, e peço desculpa, desde já, aos (poucos) leitores que poderão ficar desiludidos.
Obrigada, 9gag, pela fiel ilustração. (Note-se a bola de futebol, canto inferior esquerdo)



Acontece que recentemente li no site da BBC um artigo sobre o meu querido adorado país que descreve Portugal como um país triste de gente que gosta de estar triste: The European Country that Loves being Sad. Carreguei no link e tive interesse em ler o artigo talvez por me ter rido e ter concordado até certo ponto, mas não foi preciso ler muito mais do que um parágrafo para ver que o texto ia noutra direcção.

Toda a gente que me conhece sabe que sou opinosa e fico muito ''exaltada'' quando falamos destes tópicos mais patriotas mas, se calhar, é isso que faz de mim uma ''typical portuguese girl'', de acordo com estes turistas que passam uma semana em Lisboa a comer pastéis de bacalhau com queijo da serra, lêem um poema traduzido do Fernando Pessoa e ouvem 5 minutos de fado numa tasca em Alfama e, automaticamente, estão licenciados em Estudos Lusitanos.
Sim, eu gosto do meu país (como estou sempre a repetir) e mesmo por gostar e (ainda) não ter desistido dele é que este tipo de propaganda me irrita.
Vim a saber que Portugal é, neste momento, o destino nº1 dos americanos. Temos álcool barato, vida nocturna, boa gastronomia, sol e casinhas so much very typical, algumas com mais de 100 anos (o que para eles é pré-histórico) - que mais é que eles podem querer dum destino de férias? Há 1 ano atrás, éramos uma província espanhola, agora somos motivo para ter saudade.

Não quero, de todo, soar discriminatória/xenófoba/ofensiva com este post, mais uma vez, aqui não há ódio - estou apenas exaltada - é das hormonas, sou uma mulher né?

Mas, continuando, logo no início do artigo, escrito por um american, que, aparentemente, passou uns dias em Portugal, o autor começa por dizer que no one tells you to have a nice day. No one particularly cares if you have a nice day, because chances are they’re not having a nice day either. If you ask a Portuguese person how they’re doing, the most enthusiastic reply you can expect is mais ou menos (so so) (...) But don’t pity the Portuguese. They’re content with their discontentment, and, in an odd but enlightening way, actually enjoy it.
RESUMO: Portugal é um país de emos carracundos masoquistas? É que os Tokyo Hotel nem tocaram cá assim tantas vezes.

Okay - o que é que se passa de errado aqui? Porque, mais uma vez, na verdade até concordo a certo ponto. Quando fui guia de estudantes de Erasmus, eu muitas vezes brincava com eles dizendo coisas do género, que mais facilmente toda a gente se queixa de tudo do que elogia ou comenta algum aspecto positivo sobre seja o que for. Mas, no entanto, os portugueses não são melancholic por desporto, como ele gosta de descrever ao longo de todo o artigo. Não é um estilo de vida optado, uma moda, um 'fase rebelde de adolescência', um fashion statement - as pessoas não estão tristes e não estão cabisbaixas por opção, talvez haja uma série de razões reais por detrás disso que vão para além do nosso aparente masoquismo. E é preciso numerá-las? Talvez para um estrangeiro sim, uma pessoa que não tem culpa de não saber o que é que de facto se passa no nosso país, porque não é durante 2 semanas ou mesmo um período de Erasmus que se consegue perceber isso.
Porque, talvez as pessoas estejam tristes porque vêm o seu dinheiro a ser sugado pelo Estado e a não terem nada em retorno, ou porque têm familiares a morrer em filas de espera que os serviços de saúde não conseguem controlar. Ou, escapando a estes clichés que todos nós ouvimos diariamente nos telejornais, as mães portuguesas estão tristes porque têm de ver os seus filhos emigrar, porque por mais condições que lhes tenham dado e promessas feitas, o país continua a adiar o apoio que devia ser devido. E todos nós sabemos que há ainda mais razões para estarmos tristes - há sempre.

Mas, no entanto, enquanto são impressas canecas e t-shirts da Amália e glorificamos todo este espírito lusitano #sad, Portugal está a ter o maior boom turístico dos últimos tempos e em Lisboa isso sente-se na pele. 
Na mesma forma que artigos destes são escritos, há muitos outros a promover o quão cool é Lisboa, como é uma pérola Europeia, como toda a gente devia vir para cá e, acima de tudo, como os Portugueses são tão afáveis e simpáticos! Nessa onda, surge aquele vídeo viral do estudante alemão a falar aos pais em como Lisboa é a cidade dos seus sonhos e em como ele vai estender a sua estadia lá

Aquilo que eu sinto perante isto tudo deve ser semelhante ao que muitas outras pessoas sentem quando vivem num centro turístico - há tanta coisa que não faz qualquer sentido que acaba por ser mentira. É toda esta artificialidade.
Por um lado, para nós jovens portugueses, vendem-nos cada vez mais cedo a ideia de que, se queremos fazer alguma coisa da vida - especialmente na área artística - temos de ir para fora! Lá fora (seja lá o que isso for, é uma frase tão batida e dita tão de cor que até podem estar a falar da Lua) é que estão as boas oportunidades, universidades, vagas de emprego, coisas a sério! Cá, não dá para nada porque não há oportunidade/investimento/opções/emprego/futuro/etc na área/especialidade/opção que queremos. É a mensagem default que te aparece mal acabamos o 9º ano. Ou a pré-primária (não há tempo a perder). Mas, por outro lado, fazem vídeos super inspiradores em que mostram em como a Champalimaud seria uma faculdade fantástica, como nós jovens estudantes temos o hábito de jantar vinho com tapas todas as noites nas nossos apartamentos na Lapa, em como os transportes, de facto, funcionam bem e nunca estão demasiado cheios de turistas e nos fazem valer o passe, e mais vocês já sabem.

Sim, de facto concordo que Portugal é um país fantástico e Lisboa é uma cidade que não quero trocar por outra tão depressa, mas também concordo que somos um país de pessoas tristes mas que, acima de tudo, têm uma desgraçada falta de auto-estima - vivo num país que prefere vender-se descaradamente ao turismo, arrisca-se a perder a sua identidade e aquilo que, na verdade, faz com que haja tanta gente a vir e a interessar-se por Portugal. Despreza e negligencia o seu próprio povo e as gerações mais novas, mas depois diz ao resto da Europa para vir estudar para cá, porque só têm vantagens (que não têm para nos oferecer a nós). Porque, por mais tempo que tenha passado, a atitude provinciana é sempre a mesma, que o que vem 'de fora' é que vale, que nós somos pequenos e num mundo tão grande ninguém nos valoriza.
Todos os dias conheço cada vez mais gente da minha geração de que vem para cá de férias e acaba por ligar aos pais, tal como o rapaz alemão, para informar que não tem planos de voltar. Mas não ouço disso dos meus colegas, das minhas amigas, dos filhos dos amigos dos meus pais.

Por isso sim, se calhar os portugueses andam tristes ou cabisbaixos, ou melhor, têm razões para isso. Porque na verdade, o feedback que recebo dos meus contactos estrangeiros é que os portugueses são, de facto, pessoas acolhedoras. Obrigado, Bom dia, Boa Tarde, mesmo como portuguesa, e mesmo que seja com entoações com mais ou menos entusiasmo, é raro a loja/café/restaurante onde não ouça quando entro. E, não sei se é português ou não, mas é normal que a simpatia seja uma atitude recíproca.

Mas a saudade, o fado, e o drama católico agora são fashion, e não tarda que isso seja também uma atracção turística, mais um parágrafo para escrever noutro artigo do Huffington Post.

Inté.