Monday, September 12, 2016

Fui ver a Vida Secreta dos nossos Bichos e foi esquisito.


Pode conter SPOILERS

Há uns dias atrás fui finalmente ver The Secret Life of Pets, ou A Vida Secreta dos Bichos, apesar de todos os comentários depreciativos que tenho andado a ouvir. Acredito que seja uma pessoa esperançosa, mas ao menos não fui com demasiadas expectativas e a desilusão não foi tão grande como temia.

Antes de mais, não digo que não gostei, mas também não adorei. Honestamente, nem sei. Houve momentos bastante engraçados em que me ri, houve outros em que fiquei comovida e quase que chorei (uma das razões pela qual queria muito ver o filme é porque tenho duas cadelinhas, cujo a história é muito parecida com a sinopse do filme), mas também houve (muitos) momentos em que fiquei desconfortável - acho que não arranjo melhor adjectivo.
Sim, desconfortável. Para começar, não percebi qual é que era mesmo o público alvo deste filme: supostamente era um filme infantil, mas a maior parte das piadas eram bastante maturas. No entanto, a sala de cinema era basicamente composta por crianças abaixo dos 10 anos, acompanhadas pelos respectivos pais e mães. De filme infantil, só tem mesmo a limitação legal de idade mínima (maiores de 6 anos) e o facto de ser animado, porque ao longo da história, o diálogo dos personagens, o sentido de humor é claramente voltado para um público mais maturo/jovem adulto. 
Não estou a dizer que estava à espera de ver o Noddy ou qualquer outra coisa do Disney Kids, mas haviam certas cenas que eram desconfortavelmente violentas para o tipo de audiência que estava comigo na sala - como, por exemplo, a subcultura dos esgotos liderada pelo coelhinho esquisito, onde fizeram bastante ênfase na ideia de MATAR os donos. 


Existem outros filmes de animação que à partida são direccionados para o público infantil mas que, na verdade, acabam por tentar agradar mais aos pais e às plateias mais velhas, como o pioneiro Toy Story (então o primeiro...), Shrek ou o Magadáscar, da Dreamworks. Também podemos ir mais longe (e mais atrás na linha do tempo) e relembrar a Fuga das Galinhas ou (o mais soft) Por Àgua Abaixo, ambos do estúdio Aardman.  Todos estes filmes eu fui ver ao cinema quando era pequena e, apesar de nem todos me terem deixado constrangida e com pesadelos (no caso da Fuga Das Galinhas e do 1º Toy Story), só agora, todos estes anos depois, é que percebo realmente a essência e as verdadeiras mensagens por detrás destas longas metragens.

Chicken Run (2000) (os comentários no youtube dizem tudo)
Tinha 6 anos quando vi este filme no cinema e lembro-me de, tanto eu como a minha mãe, sairmos caladas da sala de cinema. Da mesma forma que na altura não via mais nada nos filmes do Tim Burton para além do ambiente arrepiante e das personagens medonhas, também não tive capacidade de perceber que a Fuga das Galinhas é, de facto, uma história bem inteligente e (há quem diga até) uma metáfora satirizada do terror dos campos de concentração, durante a 2a Guerra Mundial. Apesar de ser um bocado pesado para uma criança do 1º ano, continuo a defender que é preferível a séries fúteis e surrealistas que passam actualmente no Disney Channel, cujo o único problema da vida daqueles adolescentes é com quem e como é que vão ao prom. MAS, isso é tema que dá para outro post, ainda maior que este.
Se há coisa que detesto no entretenimento infantil é que seja estupidificante e vazio de conteúdo, por isso não achem que estou contra este tipo de animação, pelo contrário. Acho que é uma forma bastante inteligente e divertida de educar crianças, mudar mentalidades e ginasticar a cabecinha através do cinema, da arte e do entretenimento. Agora, o que difere neste caso específico dos Bichos é que o contéudo maturo e desconfortável não provoca nada de positivo, é apenas isso, desconfortável e forçado. Por outro lado, surpreendentemente, o Inside Out e o Zootopia foram bastante positivos e bem construídos, em termos de argumento e mensagem a transmitir. Na minha opinião, por mais 'mainstream' que sejam classificados, tanto um como outro foram filmes que conseguiram abranger o público infantil e também o mais adulto, sem ser demasiado violento ou infantil (tanto o Inside Out como o Zootopia tocam temas sensíveis, como a descriminação e o racismo, no caso do segundo.)
E isso é o que leva à razão pela qual quis mesmo escrever este post, aquilo que me irritou mais no filme - a tradução e a dobragem.

Muita gente manda vir comigo e insiste permanentemente para eu dar uma segunda hipótese aos desenhos animados de hoje em dia, como Adventure Time, Regular Show, e essas coisas que passam maioritariamente no CN, mas a verdade é que é muito pouco provável que a minha vontade mude, ainda mais com estas novas dobragens.
A mesma razão pela qual não consigo ouvir rap/hip hop português (no geral) é a mesma razão pela qual cada vez detesto mais a televisão infantil dobrada - mau português - e fala aqui a pessoa que tem uma colecção interminável de erros gramaticais e gralhas neste mesmo blog.
Mas, continuando, aborrece-me solenemente que uma língua tão rica, tão antiga, tão diversificada como a nossa, não só em sons e fonemas como em variedade de palavras e sinónimos, seja reduzida a calões forçados e faltas de criatividade e exercício mental. Não dá! Tanto nessas séries de desenhos animados como neste filme dos Bichos, todos os personagens falam como um Youtuber português de 13 anos que passa demasiado tempo ao telemóvel. Isto podia ser justificado como 'caracterização dos personagens', mas vai muito mais para além disso: é uma tentativa falhada de captar o 'público jovem' do milénio, e em vez de ser 'fixe', é simplesmente ridículo. É tão ridículo e despropositado quanto aqueles professores do liceu que vinham falar buéda fixes e bacanos com a malta, para mostrarem ao peeps como eram curtidos, mas acabavam por serem apenas caricatos e humilhantes. Em cada 5 palavras, 4 são 'meu' ou 'bué' ou 'bacano' ou 'fixe'. 
Não consigo, simplesmente. Chamem-me snob, chamem-me picuinhas, mas há coisas que cada vez me chateiam mais. Estes assassínios à nossa língua são cada vez mais estupidificantes e redutores, em vez de incentivarem o público a falar melhor e a compreender porque é que o acordo ortográfico é um atentado à nossa cultura e às nossa história. 
Mas a dobragem não serve de desculpa para a minha falta de interesse nos desenhos animados do CN - antes da versão dobrada, já tinha visto as originais e, por mais inovadoras que sejam as técnicas de animação, por mais contemporâneos que sejam os temas, nada disso se consegue sobrepor ao vazio e à falta de conteúdo destas produções (agora caiu o Carmo e a Trindade).
 Não vou desenvolver estes argumentos porque só levam àquele tipo de conversa do género "no meu tempo ..." ou "antigamente é que ..." ou ainda "hoje em dias (blah blah blah) já não vale nada", e isso também não é verdade. Há muita coisa boa e bem feita a ser produzida hoje em dia, e defendo isso. Mas, tal como dantes, também há muito lixo e, infelizmente, o lixo é muito mais acessível (e rentável).

Portanto, para concluir, A Vida Secreta dos Bichos, tal como já muita gente disse, tinha tudo para ser um filme bem interessante, humoristicamente inteligente e divertido, mas não foi. Um filme infantil não tem que ser puramente entretenimento - nem deve - mas para isso também não precisa de ser vulgar ou estupidificante, por mais ténue que essa linha seja. Infelizmente, quase que ponho na mesma categoria que pus o Bee the Movie ou os Monstros vs Aliens - filmes que podiam ser giros, mas são apenas constrangedores e cheios de humor fácil e forçado, numa tentativa falhada de juntar gerações. 

Enfim, não me odeiem depois deste post. Eu estimo muito os meus poucos leitores!

Inté e, como sempre, prometo escrever mais. 

BAZA!



1 comment:

P.A. said...

eu sou snob e picuinhas