Thursday, August 25, 2016

Daytripper - Fábio Moon e Gabriel Bá


Antes de dizer seja o que for sobre este livro, aviso já que me vai ser muito difícil escrever sobre ele, porque nem sei bem o que achei; não sei se gostei ou se não gostei - melhor, acho que isso nem sequer é o mais importante numa apreciação (nunca deveria ser, nestes casos).

Já andava para ler esta graphic novel há imenso tempo, e mal soube que ia fazer parte da nova colecção da Levoir, andei a contar as semanas para poder (finalmente) comprá-lo e ter (finalmente) a oportunidade de o ler. Se calhar foi toda essa expectativa, de todos os comentários (entre alguns elogios) que tenho ouvido sobre o trabalho dos gémeos, que facilitou com que o livro não fosse bem o que estava à espera.
Mas também, o que é que eu estava à espera?

Do Fábio Moon e Gabrial Bá não tinha lido muita coisa. Li o Umbrella Academy quando estava algures a ultrapassar a minha fase emo, por volta de 2010, e, mais recentemente, li um livrinho deles que encontrei na BDteca dos Olivais, mas nem me lembro do nome nem nada, só sei que tinha tons de verde... (sinto-me idiota agora).
Mas seja como for, não tinha grande ideia deles, apenas do que diziam deles, e tanto conheço gente que os venera como gente que não compreende essa veneração, de todo.
Por isso é que quis ler tanto o Daytripper, para ter a minha própria ideia e criar a minha própria opinião e, também, fazer com que seja o mínimo possível influenciada pelas outras que já ouvi (eis a parte complicada).

Portanto, agora que acabei de ler, e admitindo que demorou mais do que geralmente demoro a ler outra graphic novel, não consigo dizer se gostei ou não. Isto porque há coisas que gostei mas há muitas coisas que não gostei. Fui informar-me pela interwebs de outras críticas e reviews, e a maioria delas são bastante positivas e facilmente percebi o quão aclamado é este livro (sem contar com os prémios que teve, estampados na contracapa do álbum), por isso sinto-me um bocado hesitante em dizer que, simplesmente, não gostei ou que isto e isto não é bom... mas mais uma vez, como já disse várias vezes aqui neste blog, para que é que serve escrever aqui se não é para ser honesta? 
E como o propósito de tudo isto é desabafar e dizer o que me apetece, aqui vai.

A sensação geral que me fica depois de ler o Daytripper é que é um livro que tem tudo para ser um livro fantástico, mas não sei se é. O tema por si já é brutal, de tal forma que é difícil fazer uma boa adaptação/narrativa que transmita de forma poética e, ao mesmo tempo, coerente todas as mensagens e ideias que os autores querem passar. A vida e a morte é o foco de toda a história. Há este personagem central, Brás, que é um aspirante a escritor mas que, no início da sua carreira, tem que se contentar em ser apenas escritor de obituários: e é assim que tudo começa. 
O livro tenta ser uma espécie de reflexão sobre o que é de facto a vida e quando é que ela começa; quais é que são os momentos importantes que a definem, o que é que nos move, e toda a fugacidade e fragilidade da nossa existência. Por isso, divido por capítulos, em que cada um é uma história, todos juntos dão sentido às várias possibilidades e oportunidades, memórias, etapas da vida de Brás, não só pelas coisas que ele fez mas também pelas pessoas que conheceu e que, inevitavelmente, alteraram o circuito da sua vida.
Agora, tudo isto tem um espírito bastante poético, certo? Ou pelo menos teria, se não tivesse tanto texto - e não estou a falar de discurso, é texto narrativo. E acho que é aí que o meu nariz começou a torcer.. sinto que o desenho aqui, em Daytripper, é uma mera ilustração para a enorme quantidade de texto que esta graphic novel tem. Acredito, também, que uma boa BD é aquela que sabe criar o equilíbrio/casamento ideal da imagem e da palavra, e, neste caso específico, senti-me sufocada por tanto texto. A maior parte das vezes, o texto dizia exactamente o que estava a acontecer na imagem, não o complementava nem acrescentava nada, apenas repetia o que já estávamos a ver. Na maior parte do tempo, enquanto lia o livro, sentia que estava a ver um filme e que alguém estava com a cabeça apoiada no meu ombro, a narrar permanentemente aquilo que estava a acontecer.
Pelo que li, não só na introdução mas também noutras críticas, o livro pretende fazer-nos pensar sobre todas estas questões da vida, da morte, etc... mas torna-se impossível quando, ao mesmo tempo, nos apresenta a "papinha toda feita". Todo este texto narrativo não nos dá espaço nem liberdade a interpretar ou a pensar por nós próprios; automaticamente põe o leitor numa posição predefinida e encaminham-nos numa direcção já feita e, possivelmente acabamos por chegar ao mesmo destino: nada. Não só nos corta o pensamento, mas tanto texto também se torna maçador, especialmente quando é puramente palha. Desculpei, no entanto, porque talvez haja assim tanto texto devido ao facto do personagem ser escritor...? Não sei, continua a ser uma seca.

Mas, por outro lado, não deixa de ser uma mensagem bonita e positiva. É, claramente, um trabalho bastante pessoal e emotivo do lado dos autores, e isso também se sente. Acredito que seja por isso que tem tanta narração e talvez seja por isso que tudo é tão descrito e detalhado daquela forma..

Voltando ao que já disse, acho que tem tudo para ser um bom livro, mas não sei se foi a melhor concretização. Talvez não seria tão massudo se tivesse lido por partes, como originalmente foi publicado. Quanto aos desenhos, cada vez se torna mais difícil para mim ver coisas a cores completas, cada vez sou mais da equipa do 'quando menos cores melhor'.. Quando vi os esboços conceptuais nas ultimas páginas, fiquei a achar ainda mais que teria resultado muito melhor se, em vez de saturarem tudo com cores, tivessem simplesmente usado um ou outro apontamento de cor, para dar uma ideia de sombra/profundidade. Mas, isso é puramente o meu gosto pessoal.

    

Como podem ver, acho que a cor mata bastante a expressividade e a naturalidade no desenho.
E vou sempre odiar gradientes (e eles usam bastantes, aqui 
é que não se nota) #sorrynotsorry.

Enfim, no entanto não quero que fiquem com a ideia que não gostei, apenas não era tão avassalador como esperava - mas esperar essas coisas é sempre o primeiro passo para a desilusão.

E agora acabo este post como tenho acabado todos os outros, a prometer que irei escrever mais!
Inté!