Tuesday, November 3, 2015

Diário de Uma Menina Narcisista


Alison Bechdell, Fun Home

Hoje fiquei em casa, supostamente para fazer um trabalho teórico que tenho de entregar para a semana mas, em vez disso, achei que era muito pertinente actualizar o meu blog - é incrível como a inspiração nos atinge nas alturas menos convenientes.
Para descargo de consciência, já vou a meio do trabalho e já tenho uma estrutura mais ou menos concluída mas, como tudo na minha vida, o processo de pensar e escrever é simultâneo e simbiótico, e por isso vou deixar o trabalho ir correndo à velocidade e à medida que me vou lembrando de coisas para escrever.

A razão pela qual estou a falar deste trabalho é porque é a primeira vez que escrevo sobre a minha obra enquanto autora (que não sou) de BD, melhor, é a primeira vez que escrevo especificamente sobre aquilo que me motiva e inspira a fazer BD. À primeira, quando mal me falaram da ideia, fiquei super entusiasmada, mas tal como temia, mal cheguei a casa e me sentei em frente ao computador, fiquei cerca de 15 minutos a olhar para um ficheiro do word95 (sim, o meu pc é da idade da pedra) vazio.

Já não é novidade para ninguém que os artistas não sabem falar da sua obra, o que eu pessoalmente acho uma coisa muito irónica e engraçada, visto que somos pessoas tão narcisistas e egocêntricas, adoramos falar de nós mesmos e do que achamos, mas quando toca ao nosso trabalho é como se o gato nos tivesse comido a língua.
Adoraria explicar porquê, mas sinceramente não sei - ninguém sabe! Já Kant defendia que uma das 4 características do génio (artístico) era a falta de capacidade e palavras para descrever a sua obra enquanto trabalho artístico - adoro usar isto como desculpa para justificar a genialidade escondida em mim (ou aquela que gostaria de ter... é mais isso.)

O trabalho que eu deveria estar a escrever agora é sobre a autobiografia enquanto género de BD, um ramo no qual eu pretendo envergar o meu trabalho enquanto autora. Existem actualmente inúmeros autores que já tomaram este destino e que fizeram coisas espectaculares, como o clássico Chester Brown ou então o Daniel Clowes, numa vertente mais satírica e cínica. No painel feminino, não poderíamos esquecer Marjane Satrapi ou Allison Bechdell, que usaram a sua experiência de vida para falarem de temas pertinentes para o mundo e para a sociedade actual em que vivemos, sejam eles políticos ou sociais.
Mas quando sou eu a dizer que quero fazer o mesmo não soa tão heróico ou honorável, e compreendo porquê. A coisa mais óbvia, que facilmente me conseguem apontar, é o facto de eu ser estupidamente nova. Outra, é a falta de experiência, seja de vida ou de técnica, que pode estar ligada a isso.
Outra coisa que poderia pesar na consciência é o facto de um trabalho autobiográfico parecer um capricho narcisista que uma adolescente faz quando não tem jeito para fazer um argumento fictício ela mesma.
Talvez seja por isso que achei importante falar desse tema para este trabalho de faculdade, especialmente porque essas criticas não foram feitas apenas por outras pessoas, mas também por mim mesma - nós somos os piores críticos de nós próprios. Mas, a verdade é que se tenho necessidade de o fazer é porque há alguma que me diz que tem de ser feito e, de facto, tenho muita coisa cá dentro que quero dizer e é muito mais do que simplesmente desabafar.
Chateia-me que a o trabalho artístico só seja realmente levado a sério quando aborda temas sociais óbvios e flagrantes, como a guerra, a fome, a corrupção política... e quando queremos falar de algo mais íntimo ou pessoal é sempre mais difícil aceitar porque facilmente é tomado como Pop Art egocêntrica, ou então um desabafo de um espírito que nunca ultrapassou a desgraça da adolescência. Às vezes as maiores batalhas que travamos são dentro de nós próprios e ajuda muito ultrapassá-las sabendo que não estamos sozinhos - e mesmo essas batalhas pessoais e intimas muitas vezes têm ligações a temas muito mais sérios e socialmente importantes - como a homossexualidade a aceitação, no caso de Bechdell.
Há quem diga que esse é o fenómeno chave da cultura de massas, esse truque barato de conseguir que os espectadores se identifiquem com os personagens, com as situações, como uma forma de ''deixa lá, não és o único tarado/esquisito/socialmente inadequado do planeta''. Apenas não percebo porque é que isso tem de ser visto como uma forma de arte inferior, porque é que a high art é aquela que só pode ser comunicada entre elites, enquanto, para mim, a arte sempre foi e será outra forma de comunicação não forçosamente verbal.
Porque, afinal de contas, e citando outra vez um filósofo clássico dos tempos de Liceu, o homem é um animal político - um animal social.

E por isto é que não concordo quando dizem que fazer trabalho autobiográfico é essencialmente uma forma de narcisismo - às vezes pode ser a coisa mais altruísta de nós: não é assim tão fácil expormo-nos ao público, abertamente ao julgamento de toda a gente duma forma tão directa.

Como tudo o que escrevo aqui, isto é só um desabafo, uma opinião momentânea que tem o valor que tem.
De qualquer das formas, talvez devesse aproveitar alguma coisa para o trabalho.

Antes de voltar ao word95, deixo-vos aqui uma entrevista da Marjane Satrapi, a autora do Persepólis, que é uma das mulheres mais fantásticas do universo.
Inté!