Tuesday, October 27, 2015

Giant Days (comics)


Antes de mais, é muito raro eu comprar comics em issues. Não é que tenha alguma coisa contra, mas a verdade é que nunca houve nenhum que me interessasse. Portanto, pode-se dizer que Giant Days foi uma excepção.

Giant Days é publicado pela Boom! Studios, e estava planeado ser uma série de 6 issues, mas a partir do número 4 eles mudaram de ideias e, pelo que percebi, a série vai continuar para além do nº6.
É um produto duma equipa formada por John Allison (que escreve), Lissa Treiman (que desenhou) e uma colorista chamada Whitney Cogar (ah, mais o lettering de Jim Campbell)
Porém, Treiman só vai cumprir a parte do contracto que lhe coube, portanto só desenhou até ao número 6 e o número 7 já vai ser desenhado por outro artista, Max Sarin. No entando, ela vai continuar a desenhar as capas de cada número (está tudo explicado aqui no tumblr dela).

Continuando, Giant Days é sobre 3 raparigas universitárias que partilham o mesmo campus e dormitório e o enredo desenrola-se sobre as peripécias e aventuras juvenis das mesmas. 
Não há uma forçosa ligação de número para número, mas ao longo de cada issue vamos compreendendo melhor a personalidade e os segredos de cada personagem - Esther, Daisy e Susan, que narra a história.
Pronto, e é aquele tipo de histórias que involve dramas com o passado, mal entendidos e momentos constrangedores e, ao mesmo tempo, muitas situações cómicas e caricatas sobre o que é ser um jovem adulto que se sente mais criança do que adulto.
Gostei no aspecto em que as personagens não são cliché nem estereotipadas - lá porque Esther tem uma aparência emo/gótica não fez dela a tímida/retraída/incompreendida do grupo; e também gostei do facto do desenho dos personagens no geral, não só dos protagonistas, ser variado e diversificado, englobando características típicas dos looks do nosso séc XXI (crop tops e cabelos pintados de verde).

É o tipo de BD que leio por puro entretenimento, é leve e despreocupado, sem ter uma grande carga emocional ou filosófica por trás (como eu geralmente gosto).

No entando, já há uma sneak peak para o volume #7, no qual podemos ver já os desenhos do novo artista e, surpreendentemente, não noto grande diferença (talvez por ser a mesma colorista?)
De qualquer das formas, parece que continua minimamente interessante, por isso cá estarei de novo para opinar sobre a nova imagem do Giant Days.








Sunday, October 18, 2015

Mãe, eu quero fazer BD! - episódio 2

Art School Confidential - Daniel Clowes

No mês passado, comecei o meu 4º e último ano no curso de Pintura na Faculdade de Belas Artes.
Agora já posso dizer, com segurança, que sou uma ''veterana'' (apesar de não gostar muito dessa expressão) desta Faculdade. 
E apesar de ainda não ter terminado o curso, sinto que já posso fazer alguma reflexão sobre os anos que cá passei, sobre todas as alegrias e crises existenciais e sobre como cresci e mudei enquanto pessoa e ''artista''.

Muitos são os caloiros e curiosos que vêm ter comigo e perguntam ''se vale a pena ir para as Belas Artes'' e ''se Pintura é o curso certo?''. Mas a pergunta mais frequente e natural que surge de toda a gente é a clássica ''e estás a gostar do curso?'', aquela pergunta que ouço desde o primeiro dia de aulas (literalmente) e que, gradualmente, irá evoluir para ''e gostaste do curso?''.
A mudança do tempo verbal não é a única, o que muda é essencialmente a perspectiva que uma pessoa tem do curso que está a tirar, e isso é transversal a todos os cursos de todas as áreas.

No entanto, nem sempre foi um mar de rosas.

Para começar, qualquer curso na área criativa é uma montanha russa emocional. Por um lado, é muito fixe não haverem manuais e não haverem muitas aulas teóricas (mas sim, elas existem!) que vos permite um horário flexível mas, por outro, toda esta ''liberdade'' torna-se desesperante. Quando falamos de Pintura, por exemplo, estamos a falar dum curso em que a maior parte das avaliações nas cadeiras são feitas em base de opiniões - não se iludam com aquilo que os professores defendem acerca de critérios, porque no final, quem decide as notas são eles e decidem em base daquilo que eles acham dos vossos trabalhos, ou seja, as opiniões deles. E se há coisa que é subjectiva e incerta são opiniões e, para além disso, diferem de pessoa para pessoa, por isso, se vos calhar um professor que não simpatiza com o vosso ''estilo'', isso poderá ser o suficiente para nunca serem mais que 'medíocres'.

É muito fácil um professor não simpatizar com o vosso ''estilo'' (e vou manter as aspas por várias razões, uma delas é porque, na faculdade, somos todos demasiado novos e inexperientes para termos já o nosso estilo) quando aquilo que vocês fazem deriva do jardim proibido da Ilustração e da BD.
Este preconceito que existe em relacção à Ilustração e BD nas escolas de artes plásticas é uma coisa que já vem do tempo dos nossos pais e avós, e por mais liberais e vanguardistas que as artes plásticas agora sejam, esse preconceito perdura, nas entrelinhas.
E, sinceramente, não percebo porquê. 
Ao longo do meu curso, fui sentido cada vez mais relutância em fazer projectos que fossem relacionados com BD. Ao contrário do que devia, fui desenvolvendo um projecto pessoal paralelamente ao que fazia na faculdade. Por um lado, pintava umas borradas de acrílico para Pintura, e em casa, desenhava pranchas de BD para a Amadora e para o meu webcomic. E isto, para mim, até ao 3º ano era perfeitamente natural. E, infelizmente, até ao 3º ano, manti a mesma postura de trabalho-de-escola que deveria ter tido no liceu.
Apesar de isto ter uma leitura má, visto que tenho 2 anos de curso que não vão servir de nada para o meu portfolio, foram graças a esses 2 anos de desespero e confusão que enriqueci e cresci enquanto artista de BD; ou seja, foi a não fazer BD que consegui fazer melhor BD.
Foram 2 anos que andei a experimentar coisas, estragar materiais, ouvir palestras e a ver artistas que não me faziam sentido nenhum que me enriqueceram a minha técnica e experiência, porque, apesar de conseguir extrair muita coisa que me interessava, fiquei também a saber porque é que tanta coisas não me interessava.

Por isso, quando me perguntam ''Mas se querias fazer BD, porque é que não foste para outro curso?'', porque provavelmente seria muito mais fácil para mim e teria sido muito mais bem compreendida num meio onde toda a gente faz o mesmo que eu, mas assim, dessa forma, não teria tido o mesmo grau de desafio. E nós precisamos de desafios, precisamos de ser contrariados e agredidos emocional e criativamente para evoluir. E por isso não gosto dessa pergunta, porque eu não estou deslocada da minha área, e eu gosto imenso do meu curso, e graças a Pintura também sei agora que gosto de pintar.

Este testamento todo foi redigido para defender a ideia que não é preciso ir para um curso específico de Ilustração e BD para se fazer BD. Melhor, não é preciso ir para curso nenhum, se preferirem, há muitos autodidactas.
Mas sem dúvida que há imensas vantagens em ter uma educação aberta e variada. Pode ser mais exaustiva e desmotivante, mas se conseguirmos sobreviver não só ficámos muito mais fortes e com muito mais aptidões, como temos uma história do caraças para contar aos alunos de 1º ano.
E de qualquer das formas, o maior segredo para sobreviver a um curso destes é manter as opções abertas: hoje posso querer fazer BD, mas nada me impede de amanhã querer fazer instalação e tapeçaria. E quem sabe, misturar tudo e fazer uma performance. Ou melhor, esquecer esta treta toda e abrir um bistro de tostas gourmet.

Seja como for, o que vai ficar em mim é uma experiência positiva, apesar de todas as vezes que fico de mau humor e à beira de esgotamentos nervosos.

(continua?)