Sunday, July 26, 2015

Mãe, eu quero fazer BD!

Eu sou daquelas pessoas que tem a sorte de saber, desde pequenina, o que é que queria ser quando fosse grande. Apesar de ter tido algumas crises de fé e desvios ao longo do caminho, acabei sempre por voltar ao mesmo objectivo - eu quero fazer BD, quero desenhar e quero contar histórias através de desenhos.
Ora, isto é tudo muito bonito e comovente para a minha avó, mas a realidade que conhecemos é que não é assim tão fácil nem poético entrar no maravilhoso mundo das artes, ainda por cima das artes ''populares'' da banda desenhada, que facilmente são colocadas no degrau mais baixo do panorama artístico.
Pelo menos, era assim que sempre me foram postas as coisas.

O que acontece é que isso está a mudar, e isso tem muitas vantagens mas também algumas desvantagens.

Há pouco tempo, foi publicado no Sktchd um conjunto de estatísticas acerca da venda de Banda Desenhada baseada em questionários feitos a apenas 25 lojas de BD, de vários cantos do mundo, incluíndo o Canadá, Irlanda, Estados Unidos... Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive eu, o factor mais importante no negócio da BD não são os leitores/consumidores mas sim os vendedores. São eles que têm o poder de decidir o que é que os leitores vão ler, são eles que compram os comics e as graphic novels às editoras.
Apesar de 25 lojas representarem uma porção inferior a 1% do verdadeiro total de lojas de BD de todo o mundo, os resultados não deixaram de ser surpreendentes em vários pontos.

O ponto mais controverso foi logo o facto da esmagadora maioria dos vendedores escolher os comics pelo escritor e não pelo artista. Vários sites e blogs de BD enraivecidos escreveram uma série de posts em como o papel do artista tem sido cada vez mais posto de parte nos últimos anos, o que acaba por ser verdade.
Apesar das vendas de comics e graphic novels terem subido bastante nos últimos anos, não tem sido graças aos artistas, infelizmente.
Os especialistas dizem que vivemos numa era de ouro da BD; os filmes que mais facturam nos cinemas são as adaptações da Marvel e da DC, todos os meses saem novas séries, nunca se vendeu tanto merchandise e novos públicos, faixas etárias e regiões estão a ser contaminadas pelo fenómeno da Banda Desenhada, MAS, proporcionalmente, o papel do artista está cada vez mais a ser posto ao nível dum mero artesão - é quase o anti-renascimento ah ah.
Pode ser uma era de ouro para a 9a arte, mas é uma era guiada pelos escritores, não pelos artistas.

Importance in Ordering
A personagem principal e a Editora são mais importantes que o artista!
Eu, como aspirante a artista, devia igualmente revoltar-me e começar a argumentar em como a arte na BD é 1000 vezes mais importante e determinante que a história, mas isso não seria verdade. 
A razão pela qual eu não tenho interesse pelas séries da Marvel/DC e pela qual já não tenho paciência nenhuma para os filmes dos Avengers e do Iron Man etc, é mesmo por ser exclusivamente um produto de Indústria, a Indústria da BD. O interesse principal duma indústria é facturar, ganhar lucro. Actualmente, a ideia que esse tipo de comics me transmite é que o público que as lê não está minimamente interessado na arte, é apenas na história, o que vai acontecer ao Batman, quem luta com quem, quem mata quem. Isso vê-se nas convenções, nos Iberanimes e nas conversas que tenho com outras pessoas.
São poucos os que comprar esses comics por terem sidos desenhados pelo artista X ou pintados pelo autor Y. O desenho neste tipo de BD transformou-se numa ilustração para uma história que é escrita 20 vezes mais rapidamente do que um desenho é feito, o que torna o trabalho dos artistas muito mais penoso. Os desenhos vivem em função da história, e não ao contrário. A maior parte das colecções não mantém o mesmo artista do primeiro ao último número.

Eu tenho um critério muito preconceituoso quanto à BD que consumo: vou à primeira página, leio os créditos, se tem mais de 3 autores, perco o interesse. Se é preciso um gajo para desenhar, outro para passar a tinta, outro para pintar, outro para a adicionar luz, outro para sombra.... etc, para elaborar um produto final, é porque não estou a ler uma Banda Desenhada que prioriza o desenho, mas sim um produto comercial que contrata uma equipa que faz o que é necessário o mais depressa possível, para poder vender enquanto pode e lucrar através disso. Isso não é errado nem é pior do que uma graphic novel indie desenvolvida pessoalmente pelo artista, simplesmente não é aquilo que procuro na BD.

Mas o que acontece neste ramo específico da BD, o ramo que gere mais milhões, é um fruto disso que acabei de descrever. Se a indústria não valoriza o artista, chegando ao ponto de não incluir o seu nome na capa em alguns casos, porque haveria o leitor de valorizar?
Aquilo que acho é que um não sobrevive sem o outro. Um livro pode estar extremamente bem desenhado, mas se a história não valer, é quase como um insulto ao artista. O mesmo acontece ao contrário. Talvez mesmo por eu própria ter noção que não sei escrever, acabo por dar valor a um bom argumento. No entanto, sempre que um dos lados se descuidar, é como se desprezasse o outro. A questão é nós sabermos aquilo que cada um pessoalmente vai à procura quando compra uma Banda Desenhada - e no meu caso, eu procuro bons desenhos que sejam suportados por uma história convincente.

Por outro lado, o ramo das Graphic Novels e das editoras mais pequenas, como a Boom! ou a 1st Second, tem vindo a crescer cada vez mais. Mesmo por ter havido essa enorme explosão no mundo dos Grandes Dois (Marvel/DC), parece-me que algumas pessoas têm vindo a ficar saturadas e por isso procuram alternativas, e alternativas em que a arte gráfica não ultrapassa o enredo.
Esse factor está indirectamente relacionado com o grande aumento de mulheres no mundo da Banda Desenhada, não só como autoras mas essencialmente como leitoras e consumidoras.

Lumberjanes, da Boom!
Giant Days, da Boom!
Friends With Boys, da 1st Second

Quando me mentalizei que queria fazer Banda Desenhada profissionalmente, ao ínicio ouvi muitas bocas de como era um negócio de homens e em como 'não conheço nenhuma autora de BD'. Ora bem, isso não durou muito, porque agora mesmo estão a vir os resultados duma geração que há 5-10 anos atrás foi alvo do grande impacte da manga (citando aqui o grande senhor Scott Mccloud). Muitas dessas pessoas que há 5-10 anos andavam a ler shoujo à escondidas na FNAC, e muito antes a ver Navegantes da Lua no Canal Panda ou a ler W.I.T.C.H. durante as aulas de Matemática, agora estão a entrar no mercado de trabalho e são quase todas raparigas. E eu confesso que me insiro nesse grupo. E mais, actualmente a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde eu estudo, tem mais de 2/3 de raparigas como estudantes.

No entanto, mesmo por ser ainda emergente, só vamos começar a ver resultados disso daqui a uns anos. Mas entretanto, o grande vencedor do Eisner Award para melhor álbum foi duma dupla feminina, This One Summer da Jillian e Mariko Tamaki.

This One Summer - Jillian e Mariko Tamaki

Em Portugal, e baseando na minha experiência pessoal, pode-se notar que o mesmo vai acontecendo, em pequena escala. Não somos um país com uma tradição nem um estilo próprio de BD conhecidos mundialmente, como os Franceses ou Japoneses, mas isso não tem de ser visto como uma desvantagem, mas sim como uma oportunidade de podermos criar de raiz e agora a nossa própria cultura.
E de momento, vejo a aparecer uma série de novos artistas, já para se juntarem aos veteranos das décadas passadas. E sim, muitos desses novos artistas já são raparigas.
Em 2014, o cartaz do AmadoraBD foi desenhado pela 1ª vez por uma mulher, Joana Afonso, que no ano anterior foi vencedora do Melhor Álbum.

No entanto, continuo a sentir que há algum preconceito e que há muita gente que assume que eu, sendo rapariga e fazendo BD, quero envergar pelo místico mundo oriental da manga. Olha, não.
Não nego nem escondo o meu passado sombrio, mas a verdade é que, apesar de no Japão as autoras femininas de BD serem uma grande maioria, no ocidente não é a mesma coisa. Podia agora começar a divagar acerca do peso enorme e da batalha constante que é ser uma mulher no mundo da BD, mas isso seria um drama desnecessário, para além que é tema que dá metros de pano para manga.

Por agora, tudo isto é o que tenho para reflectir. Ainda tenho muito que ler, mas o pouco que já reti vai-me deixar muito para pensar e deu-me imensa vontade de ir desenhar, por isso, é o que vou fazer agora.
Mas primeiro vou à praia.