Sunday, December 13, 2015

Talco de Vidro (graphic novel)


Na semana passada, ainda na Comic Con, comprei este romance gráfico - okay, odeio este termo, vou dizer BD - esta BD do autor brasileiro Marcello Quintanilha. Nunca tinha lido nada dele, apenas tinha visto algumas pranchas expostas no festival de Beja e era daí que a minha fraca ideia do trabalho dele vinha.
Talco de Vidro conta a história duma mulher, Rosângela (nome estranho), que tem uma vida supostamente perfeita, com um emprego estável, marido ideal e duas adoráveis crianças. É uma pessoa que vive num lugar fantástico e privilegiado, aquele tipo de pessoa que toda a gente olha com admiração, mas ,ao mesmo tempo, com carinho, porque uma senhora assim, ''tão calma e tão doce'', é normal que só tenha tido tudo de bom ao longo da sua vida.
E por isso, o que seria de esperar de Rosângela seria que ela fosse, de facto, feliz e tranquila na sua vidinha de capa de revista, e assim o seria se não fosse a inveja e a insegurança que sente em relação à sua prima, uma rapariga linda ao qual a vida já não foi tão generosa. 

O narrador do livro descreve os acontecimentos e as desgraças da Rosângela como se fosse um colega de trabalho cusco, que não tem nada para fazer na vida senão comentar a dos outros: não percebemos bem a posição dele, que, apesar de ser narrador ausente, fala como se fosse a consciência da protagonista, que vai desculpando ironicamente e permanentemente todas as falhas e pensamentos pecaminosos que Rosângela vai desenvolvendo ao longo do enredo.
E digo-vos já que é AFLITIVO. O decorrer da acção é muito intenso - ao mesmo tempo que parece tudo acontece demasiado rápido, tudo vai sempre voltando atrás, em flashbacks, intensificando e evidenciando pormenores, quase que sufocando o nosso pensamento. A certa altura, eu já tinha pena da Rosângela e só me dava vontade de gritar CALA-TE! àquele narrador, que não tem papas na língua.

Mas, para além de ser bem contado, o livro também é bastante bem conseguido a nível gráfico. Adorei os desenhos e o estilo de traço que o autor decidiu adoptar, que apesar de ser um desenho com uma vertente digital bastante acentuada, não deixa de ter um traço natural e agradavelmente fluído.
É um desenho simples e directo, não tem linhas a mais nem a menos do que precisa e isso é um prazer para os meus olhos e uma característica que demonstra e reforça a qualidade do desenho.

Portanto, acho que assim concluo que foi uma leitura positiva e uma compra bem feita.
Acho que fico tentada a voltar a ler mais deste autor e posso recomendar-vos que também o façam.

Inté!






Saturday, December 12, 2015

Sobreviver à Comic Con



É verdade! Uma semana depois, venho deixar o meu testemunho do ''maior festival de cultura pop'' do país.
Muita gente, na segunda feira, me veio perguntar ''Ah e foi giro?'', e respondi sempre a mesma coisa ''Sim, sim, cansativo'', porque, na verdade, é a primeira coisa que penso quando me falam da Comic Con - cansativo.

Também estive presente na edição do ano passado (mas na altura não me apeteceu escrever nada sobre isso) e, em termos de comparação, este ano foi muito mais intenso. Não só pelo facto da área do evento ter praticamente duplicado, como também (consequentemente) teve muito mais visitantes.
As principais razões que me levam à Comic Con são ''profissionais'', vou lá pela BD e pouco mais, por isso não esperem que eu vá redigir muito sobre cosplay ou painéis de Séries - que (infelizmente) não apanhei nenhum, nem este ano nem no ano passado.

No geral, acho que foi um evento bem conseguido para aquilo que é suposto ser. Já foi a minha segunda vez e acredito que para o ano se vá repetir. Sendo assim, acho que é boa ideia ter em mente alguns tópicos, para que a próxima edição seja uma experiência ainda melhor. Assim, partilho agora com vocês um pequeno manual de sobrevivência, caso queiram aventurar-se no mundo dos geeks e da cultura pop em Matosinhos em 2016 e por em diante.



1. Evita a fila da entrada!

Apesar de ser praticamente inevitável. Se fores o tipo de pessoa cautelosa e astuta (como eu) ou simplesmente um verdadeiro fã entusiasmado (com eu também) e compraste o teu bilhete/passe com antecedência, é praticamente inevitável a fila enorme que vais ter que enfrentar para entrar no evento. Para entrarem no recinto, vão ter que trocar o bilhete/passe por uma pulseira correspondente, e esse processo no sábado de manhã é o caos. Este ano, as minhas amigas ficaram 2horas (elas cronometraram) em pé na fila, isto no sábado. Como contornar isso? É possível!
  • Hipótese 1: Se tens um passe de 3 dias, aconselho-te a ires marcar entrada na sexta - porque sexta feira, quase ninguém vai, e se fores ao fim do dia, entras quase directamente. Assim, no dia seguinte, já terás a pulseira e podes entrar directamente no evento e saltar o processo de validação da pulseira.  A maior parte das pessoas (eu) compram o passe Weekend e só vão no sábado e domingo - e depois acabam por aproveitar apenas sábado à tarde e domingo, porque sábado de manhã estão na fila.
  • Hipótese 2: És um preguiçoso e decidiste comprar o bilhete diário no dia. Não é tão má jogada quanto parece, porque estas pessoas compraram o bilhete na bilheteira do recinto, podendo logo nessa mesma bilheteira ter a pulseira, ou seja, não tiveram que ir para a fila e entraram logo no evento. Suck it losers!

2. Leva almoço

Na primeira edição, a zona de alimentação era praticamente inexistente. Haviam uns 2 ou 3 cafés Iberqualquercoisa que serviam umas mini sandes/pseudo bifanas que não justificavam o seu preço e que, inevitavelmente, tinham filas e filas enormes. Ou seja, não bastaram as 2 horas que ficaste para validar a pulseira, como vais ter que esperar mais uma para conseguir um croquete.
Este ano, a zona de restauração estava muito mais diversificada e muito melhor organizada. Mas mesmo assim, não deixa de ser caótica, e, qualquer das formas, se é para comer uma sandes, mais vale trazeres uma de casa, que podes comer a qualquer altura que te apetecer sem ter que esperar em filas, e podes usar esses 4/5euros noutra coisa, tipo um porta-chaves manhoso em forma de Totoro!
O mesmo se aplica a uma garrafinha de água ;)

3. Vai à Artist Alley

Se o que queres é boa BD, é na Artist Alley que a vais encontrar. Nos stands e nas lojas não vais encontrar coisas muito diferentes do que vês nas Fnac, apenas vão estar mais baratas, mas na Artist Alley, para além de falares pessoalmente com os autores, vais encontrar muito mais variedade e surpreendente qualidade, seja qual for o estilo que procuras. E ainda para além disso, uma banca na Artist Alley é estupidamente cara, portanto qualquer compra que faças lá é uma óptima ajuda para o artista.


4. Cuidado com as diferenças de temperatura

Apesar de estarmos em Dezembro e estar frio na rua, não te deixes iludir. Dentro da Comic Con vai estar um calor desgraçado, especialmente na zona dos stands e dos video jogos. Este ano já houve bengaleiro, portanto aconselho toda a gente a levar um casaco bem quente, para que por baixo possa ter apenas algo mais leve, e não terem que andar a transpirar o resto do dia.


5. Diverte-te!

Sim, mesmo que seja domingo e estejas super cansado/a porque não tens dormido nada de jeito no hostel, lembra-te que só vai haver mais para o ano, e nem tens a certeza se vais! - este conselho aplica-se praticamente a qualquer viagem/evento/ocasião espontânea.
No domingo, eu andei literalmente a adormecer nas mesas da zona de alimentação e a rastejar pelos corredores, mas isso não impediu que fosse ao Armazém Assombrado namoriscar com zombies (ou ser confundida por um deles) e à Portfolio Review buscar o meu trabalho e ainda assim ter tempo para dançar, tirar fotos com uma série de desconhecidos e beber 3 litros de Pleno à custa de selfies.
Se podem fazer, façam - é a regra de ouro. É sempre melhor voltar a  casa cansado, mas com imensas memórias e histórias para contar, certo?

Pronto, e por agora não me lembro de mais nada que vos possa aconselhar.
Quem foi, espero que se tenha divertido. Quem não foi, aqui têm umas dicas para o ano que vem.

Inté!

Tuesday, November 3, 2015

Diário de Uma Menina Narcisista


Alison Bechdell, Fun Home

Hoje fiquei em casa, supostamente para fazer um trabalho teórico que tenho de entregar para a semana mas, em vez disso, achei que era muito pertinente actualizar o meu blog - é incrível como a inspiração nos atinge nas alturas menos convenientes.
Para descargo de consciência, já vou a meio do trabalho e já tenho uma estrutura mais ou menos concluída mas, como tudo na minha vida, o processo de pensar e escrever é simultâneo e simbiótico, e por isso vou deixar o trabalho ir correndo à velocidade e à medida que me vou lembrando de coisas para escrever.

A razão pela qual estou a falar deste trabalho é porque é a primeira vez que escrevo sobre a minha obra enquanto autora (que não sou) de BD, melhor, é a primeira vez que escrevo especificamente sobre aquilo que me motiva e inspira a fazer BD. À primeira, quando mal me falaram da ideia, fiquei super entusiasmada, mas tal como temia, mal cheguei a casa e me sentei em frente ao computador, fiquei cerca de 15 minutos a olhar para um ficheiro do word95 (sim, o meu pc é da idade da pedra) vazio.

Já não é novidade para ninguém que os artistas não sabem falar da sua obra, o que eu pessoalmente acho uma coisa muito irónica e engraçada, visto que somos pessoas tão narcisistas e egocêntricas, adoramos falar de nós mesmos e do que achamos, mas quando toca ao nosso trabalho é como se o gato nos tivesse comido a língua.
Adoraria explicar porquê, mas sinceramente não sei - ninguém sabe! Já Kant defendia que uma das 4 características do génio (artístico) era a falta de capacidade e palavras para descrever a sua obra enquanto trabalho artístico - adoro usar isto como desculpa para justificar a genialidade escondida em mim (ou aquela que gostaria de ter... é mais isso.)

O trabalho que eu deveria estar a escrever agora é sobre a autobiografia enquanto género de BD, um ramo no qual eu pretendo envergar o meu trabalho enquanto autora. Existem actualmente inúmeros autores que já tomaram este destino e que fizeram coisas espectaculares, como o clássico Chester Brown ou então o Daniel Clowes, numa vertente mais satírica e cínica. No painel feminino, não poderíamos esquecer Marjane Satrapi ou Allison Bechdell, que usaram a sua experiência de vida para falarem de temas pertinentes para o mundo e para a sociedade actual em que vivemos, sejam eles políticos ou sociais.
Mas quando sou eu a dizer que quero fazer o mesmo não soa tão heróico ou honorável, e compreendo porquê. A coisa mais óbvia, que facilmente me conseguem apontar, é o facto de eu ser estupidamente nova. Outra, é a falta de experiência, seja de vida ou de técnica, que pode estar ligada a isso.
Outra coisa que poderia pesar na consciência é o facto de um trabalho autobiográfico parecer um capricho narcisista que uma adolescente faz quando não tem jeito para fazer um argumento fictício ela mesma.
Talvez seja por isso que achei importante falar desse tema para este trabalho de faculdade, especialmente porque essas criticas não foram feitas apenas por outras pessoas, mas também por mim mesma - nós somos os piores críticos de nós próprios. Mas, a verdade é que se tenho necessidade de o fazer é porque há alguma que me diz que tem de ser feito e, de facto, tenho muita coisa cá dentro que quero dizer e é muito mais do que simplesmente desabafar.
Chateia-me que a o trabalho artístico só seja realmente levado a sério quando aborda temas sociais óbvios e flagrantes, como a guerra, a fome, a corrupção política... e quando queremos falar de algo mais íntimo ou pessoal é sempre mais difícil aceitar porque facilmente é tomado como Pop Art egocêntrica, ou então um desabafo de um espírito que nunca ultrapassou a desgraça da adolescência. Às vezes as maiores batalhas que travamos são dentro de nós próprios e ajuda muito ultrapassá-las sabendo que não estamos sozinhos - e mesmo essas batalhas pessoais e intimas muitas vezes têm ligações a temas muito mais sérios e socialmente importantes - como a homossexualidade a aceitação, no caso de Bechdell.
Há quem diga que esse é o fenómeno chave da cultura de massas, esse truque barato de conseguir que os espectadores se identifiquem com os personagens, com as situações, como uma forma de ''deixa lá, não és o único tarado/esquisito/socialmente inadequado do planeta''. Apenas não percebo porque é que isso tem de ser visto como uma forma de arte inferior, porque é que a high art é aquela que só pode ser comunicada entre elites, enquanto, para mim, a arte sempre foi e será outra forma de comunicação não forçosamente verbal.
Porque, afinal de contas, e citando outra vez um filósofo clássico dos tempos de Liceu, o homem é um animal político - um animal social.

E por isto é que não concordo quando dizem que fazer trabalho autobiográfico é essencialmente uma forma de narcisismo - às vezes pode ser a coisa mais altruísta de nós: não é assim tão fácil expormo-nos ao público, abertamente ao julgamento de toda a gente duma forma tão directa.

Como tudo o que escrevo aqui, isto é só um desabafo, uma opinião momentânea que tem o valor que tem.
De qualquer das formas, talvez devesse aproveitar alguma coisa para o trabalho.

Antes de voltar ao word95, deixo-vos aqui uma entrevista da Marjane Satrapi, a autora do Persepólis, que é uma das mulheres mais fantásticas do universo.
Inté!





Tuesday, October 27, 2015

Giant Days (comics)


Antes de mais, é muito raro eu comprar comics em issues. Não é que tenha alguma coisa contra, mas a verdade é que nunca houve nenhum que me interessasse. Portanto, pode-se dizer que Giant Days foi uma excepção.

Giant Days é publicado pela Boom! Studios, e estava planeado ser uma série de 6 issues, mas a partir do número 4 eles mudaram de ideias e, pelo que percebi, a série vai continuar para além do nº6.
É um produto duma equipa formada por John Allison (que escreve), Lissa Treiman (que desenhou) e uma colorista chamada Whitney Cogar (ah, mais o lettering de Jim Campbell)
Porém, Treiman só vai cumprir a parte do contracto que lhe coube, portanto só desenhou até ao número 6 e o número 7 já vai ser desenhado por outro artista, Max Sarin. No entando, ela vai continuar a desenhar as capas de cada número (está tudo explicado aqui no tumblr dela).

Continuando, Giant Days é sobre 3 raparigas universitárias que partilham o mesmo campus e dormitório e o enredo desenrola-se sobre as peripécias e aventuras juvenis das mesmas. 
Não há uma forçosa ligação de número para número, mas ao longo de cada issue vamos compreendendo melhor a personalidade e os segredos de cada personagem - Esther, Daisy e Susan, que narra a história.
Pronto, e é aquele tipo de histórias que involve dramas com o passado, mal entendidos e momentos constrangedores e, ao mesmo tempo, muitas situações cómicas e caricatas sobre o que é ser um jovem adulto que se sente mais criança do que adulto.
Gostei no aspecto em que as personagens não são cliché nem estereotipadas - lá porque Esther tem uma aparência emo/gótica não fez dela a tímida/retraída/incompreendida do grupo; e também gostei do facto do desenho dos personagens no geral, não só dos protagonistas, ser variado e diversificado, englobando características típicas dos looks do nosso séc XXI (crop tops e cabelos pintados de verde).

É o tipo de BD que leio por puro entretenimento, é leve e despreocupado, sem ter uma grande carga emocional ou filosófica por trás (como eu geralmente gosto).

No entando, já há uma sneak peak para o volume #7, no qual podemos ver já os desenhos do novo artista e, surpreendentemente, não noto grande diferença (talvez por ser a mesma colorista?)
De qualquer das formas, parece que continua minimamente interessante, por isso cá estarei de novo para opinar sobre a nova imagem do Giant Days.








Sunday, October 18, 2015

Mãe, eu quero fazer BD! - episódio 2

Art School Confidential - Daniel Clowes

No mês passado, comecei o meu 4º e último ano no curso de Pintura na Faculdade de Belas Artes.
Agora já posso dizer, com segurança, que sou uma ''veterana'' (apesar de não gostar muito dessa expressão) desta Faculdade. 
E apesar de ainda não ter terminado o curso, sinto que já posso fazer alguma reflexão sobre os anos que cá passei, sobre todas as alegrias e crises existenciais e sobre como cresci e mudei enquanto pessoa e ''artista''.

Muitos são os caloiros e curiosos que vêm ter comigo e perguntam ''se vale a pena ir para as Belas Artes'' e ''se Pintura é o curso certo?''. Mas a pergunta mais frequente e natural que surge de toda a gente é a clássica ''e estás a gostar do curso?'', aquela pergunta que ouço desde o primeiro dia de aulas (literalmente) e que, gradualmente, irá evoluir para ''e gostaste do curso?''.
A mudança do tempo verbal não é a única, o que muda é essencialmente a perspectiva que uma pessoa tem do curso que está a tirar, e isso é transversal a todos os cursos de todas as áreas.

No entanto, nem sempre foi um mar de rosas.

Para começar, qualquer curso na área criativa é uma montanha russa emocional. Por um lado, é muito fixe não haverem manuais e não haverem muitas aulas teóricas (mas sim, elas existem!) que vos permite um horário flexível mas, por outro, toda esta ''liberdade'' torna-se desesperante. Quando falamos de Pintura, por exemplo, estamos a falar dum curso em que a maior parte das avaliações nas cadeiras são feitas em base de opiniões - não se iludam com aquilo que os professores defendem acerca de critérios, porque no final, quem decide as notas são eles e decidem em base daquilo que eles acham dos vossos trabalhos, ou seja, as opiniões deles. E se há coisa que é subjectiva e incerta são opiniões e, para além disso, diferem de pessoa para pessoa, por isso, se vos calhar um professor que não simpatiza com o vosso ''estilo'', isso poderá ser o suficiente para nunca serem mais que 'medíocres'.

É muito fácil um professor não simpatizar com o vosso ''estilo'' (e vou manter as aspas por várias razões, uma delas é porque, na faculdade, somos todos demasiado novos e inexperientes para termos já o nosso estilo) quando aquilo que vocês fazem deriva do jardim proibido da Ilustração e da BD.
Este preconceito que existe em relacção à Ilustração e BD nas escolas de artes plásticas é uma coisa que já vem do tempo dos nossos pais e avós, e por mais liberais e vanguardistas que as artes plásticas agora sejam, esse preconceito perdura, nas entrelinhas.
E, sinceramente, não percebo porquê. 
Ao longo do meu curso, fui sentido cada vez mais relutância em fazer projectos que fossem relacionados com BD. Ao contrário do que devia, fui desenvolvendo um projecto pessoal paralelamente ao que fazia na faculdade. Por um lado, pintava umas borradas de acrílico para Pintura, e em casa, desenhava pranchas de BD para a Amadora e para o meu webcomic. E isto, para mim, até ao 3º ano era perfeitamente natural. E, infelizmente, até ao 3º ano, manti a mesma postura de trabalho-de-escola que deveria ter tido no liceu.
Apesar de isto ter uma leitura má, visto que tenho 2 anos de curso que não vão servir de nada para o meu portfolio, foram graças a esses 2 anos de desespero e confusão que enriqueci e cresci enquanto artista de BD; ou seja, foi a não fazer BD que consegui fazer melhor BD.
Foram 2 anos que andei a experimentar coisas, estragar materiais, ouvir palestras e a ver artistas que não me faziam sentido nenhum que me enriqueceram a minha técnica e experiência, porque, apesar de conseguir extrair muita coisa que me interessava, fiquei também a saber porque é que tanta coisas não me interessava.

Por isso, quando me perguntam ''Mas se querias fazer BD, porque é que não foste para outro curso?'', porque provavelmente seria muito mais fácil para mim e teria sido muito mais bem compreendida num meio onde toda a gente faz o mesmo que eu, mas assim, dessa forma, não teria tido o mesmo grau de desafio. E nós precisamos de desafios, precisamos de ser contrariados e agredidos emocional e criativamente para evoluir. E por isso não gosto dessa pergunta, porque eu não estou deslocada da minha área, e eu gosto imenso do meu curso, e graças a Pintura também sei agora que gosto de pintar.

Este testamento todo foi redigido para defender a ideia que não é preciso ir para um curso específico de Ilustração e BD para se fazer BD. Melhor, não é preciso ir para curso nenhum, se preferirem, há muitos autodidactas.
Mas sem dúvida que há imensas vantagens em ter uma educação aberta e variada. Pode ser mais exaustiva e desmotivante, mas se conseguirmos sobreviver não só ficámos muito mais fortes e com muito mais aptidões, como temos uma história do caraças para contar aos alunos de 1º ano.
E de qualquer das formas, o maior segredo para sobreviver a um curso destes é manter as opções abertas: hoje posso querer fazer BD, mas nada me impede de amanhã querer fazer instalação e tapeçaria. E quem sabe, misturar tudo e fazer uma performance. Ou melhor, esquecer esta treta toda e abrir um bistro de tostas gourmet.

Seja como for, o que vai ficar em mim é uma experiência positiva, apesar de todas as vezes que fico de mau humor e à beira de esgotamentos nervosos.

(continua?)

Sunday, July 26, 2015

Mãe, eu quero fazer BD!

Eu sou daquelas pessoas que tem a sorte de saber, desde pequenina, o que é que queria ser quando fosse grande. Apesar de ter tido algumas crises de fé e desvios ao longo do caminho, acabei sempre por voltar ao mesmo objectivo - eu quero fazer BD, quero desenhar e quero contar histórias através de desenhos.
Ora, isto é tudo muito bonito e comovente para a minha avó, mas a realidade que conhecemos é que não é assim tão fácil nem poético entrar no maravilhoso mundo das artes, ainda por cima das artes ''populares'' da banda desenhada, que facilmente são colocadas no degrau mais baixo do panorama artístico.
Pelo menos, era assim que sempre me foram postas as coisas.

O que acontece é que isso está a mudar, e isso tem muitas vantagens mas também algumas desvantagens.

Há pouco tempo, foi publicado no Sktchd um conjunto de estatísticas acerca da venda de Banda Desenhada baseada em questionários feitos a apenas 25 lojas de BD, de vários cantos do mundo, incluíndo o Canadá, Irlanda, Estados Unidos... Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive eu, o factor mais importante no negócio da BD não são os leitores/consumidores mas sim os vendedores. São eles que têm o poder de decidir o que é que os leitores vão ler, são eles que compram os comics e as graphic novels às editoras.
Apesar de 25 lojas representarem uma porção inferior a 1% do verdadeiro total de lojas de BD de todo o mundo, os resultados não deixaram de ser surpreendentes em vários pontos.

O ponto mais controverso foi logo o facto da esmagadora maioria dos vendedores escolher os comics pelo escritor e não pelo artista. Vários sites e blogs de BD enraivecidos escreveram uma série de posts em como o papel do artista tem sido cada vez mais posto de parte nos últimos anos, o que acaba por ser verdade.
Apesar das vendas de comics e graphic novels terem subido bastante nos últimos anos, não tem sido graças aos artistas, infelizmente.
Os especialistas dizem que vivemos numa era de ouro da BD; os filmes que mais facturam nos cinemas são as adaptações da Marvel e da DC, todos os meses saem novas séries, nunca se vendeu tanto merchandise e novos públicos, faixas etárias e regiões estão a ser contaminadas pelo fenómeno da Banda Desenhada, MAS, proporcionalmente, o papel do artista está cada vez mais a ser posto ao nível dum mero artesão - é quase o anti-renascimento ah ah.
Pode ser uma era de ouro para a 9a arte, mas é uma era guiada pelos escritores, não pelos artistas.

Importance in Ordering
A personagem principal e a Editora são mais importantes que o artista!
Eu, como aspirante a artista, devia igualmente revoltar-me e começar a argumentar em como a arte na BD é 1000 vezes mais importante e determinante que a história, mas isso não seria verdade. 
A razão pela qual eu não tenho interesse pelas séries da Marvel/DC e pela qual já não tenho paciência nenhuma para os filmes dos Avengers e do Iron Man etc, é mesmo por ser exclusivamente um produto de Indústria, a Indústria da BD. O interesse principal duma indústria é facturar, ganhar lucro. Actualmente, a ideia que esse tipo de comics me transmite é que o público que as lê não está minimamente interessado na arte, é apenas na história, o que vai acontecer ao Batman, quem luta com quem, quem mata quem. Isso vê-se nas convenções, nos Iberanimes e nas conversas que tenho com outras pessoas.
São poucos os que comprar esses comics por terem sidos desenhados pelo artista X ou pintados pelo autor Y. O desenho neste tipo de BD transformou-se numa ilustração para uma história que é escrita 20 vezes mais rapidamente do que um desenho é feito, o que torna o trabalho dos artistas muito mais penoso. Os desenhos vivem em função da história, e não ao contrário. A maior parte das colecções não mantém o mesmo artista do primeiro ao último número.

Eu tenho um critério muito preconceituoso quanto à BD que consumo: vou à primeira página, leio os créditos, se tem mais de 3 autores, perco o interesse. Se é preciso um gajo para desenhar, outro para passar a tinta, outro para pintar, outro para a adicionar luz, outro para sombra.... etc, para elaborar um produto final, é porque não estou a ler uma Banda Desenhada que prioriza o desenho, mas sim um produto comercial que contrata uma equipa que faz o que é necessário o mais depressa possível, para poder vender enquanto pode e lucrar através disso. Isso não é errado nem é pior do que uma graphic novel indie desenvolvida pessoalmente pelo artista, simplesmente não é aquilo que procuro na BD.

Mas o que acontece neste ramo específico da BD, o ramo que gere mais milhões, é um fruto disso que acabei de descrever. Se a indústria não valoriza o artista, chegando ao ponto de não incluir o seu nome na capa em alguns casos, porque haveria o leitor de valorizar?
Aquilo que acho é que um não sobrevive sem o outro. Um livro pode estar extremamente bem desenhado, mas se a história não valer, é quase como um insulto ao artista. O mesmo acontece ao contrário. Talvez mesmo por eu própria ter noção que não sei escrever, acabo por dar valor a um bom argumento. No entanto, sempre que um dos lados se descuidar, é como se desprezasse o outro. A questão é nós sabermos aquilo que cada um pessoalmente vai à procura quando compra uma Banda Desenhada - e no meu caso, eu procuro bons desenhos que sejam suportados por uma história convincente.

Por outro lado, o ramo das Graphic Novels e das editoras mais pequenas, como a Boom! ou a 1st Second, tem vindo a crescer cada vez mais. Mesmo por ter havido essa enorme explosão no mundo dos Grandes Dois (Marvel/DC), parece-me que algumas pessoas têm vindo a ficar saturadas e por isso procuram alternativas, e alternativas em que a arte gráfica não ultrapassa o enredo.
Esse factor está indirectamente relacionado com o grande aumento de mulheres no mundo da Banda Desenhada, não só como autoras mas essencialmente como leitoras e consumidoras.

Lumberjanes, da Boom!
Giant Days, da Boom!
Friends With Boys, da 1st Second

Quando me mentalizei que queria fazer Banda Desenhada profissionalmente, ao ínicio ouvi muitas bocas de como era um negócio de homens e em como 'não conheço nenhuma autora de BD'. Ora bem, isso não durou muito, porque agora mesmo estão a vir os resultados duma geração que há 5-10 anos atrás foi alvo do grande impacte da manga (citando aqui o grande senhor Scott Mccloud). Muitas dessas pessoas que há 5-10 anos andavam a ler shoujo à escondidas na FNAC, e muito antes a ver Navegantes da Lua no Canal Panda ou a ler W.I.T.C.H. durante as aulas de Matemática, agora estão a entrar no mercado de trabalho e são quase todas raparigas. E eu confesso que me insiro nesse grupo. E mais, actualmente a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde eu estudo, tem mais de 2/3 de raparigas como estudantes.

No entanto, mesmo por ser ainda emergente, só vamos começar a ver resultados disso daqui a uns anos. Mas entretanto, o grande vencedor do Eisner Award para melhor álbum foi duma dupla feminina, This One Summer da Jillian e Mariko Tamaki.

This One Summer - Jillian e Mariko Tamaki

Em Portugal, e baseando na minha experiência pessoal, pode-se notar que o mesmo vai acontecendo, em pequena escala. Não somos um país com uma tradição nem um estilo próprio de BD conhecidos mundialmente, como os Franceses ou Japoneses, mas isso não tem de ser visto como uma desvantagem, mas sim como uma oportunidade de podermos criar de raiz e agora a nossa própria cultura.
E de momento, vejo a aparecer uma série de novos artistas, já para se juntarem aos veteranos das décadas passadas. E sim, muitos desses novos artistas já são raparigas.
Em 2014, o cartaz do AmadoraBD foi desenhado pela 1ª vez por uma mulher, Joana Afonso, que no ano anterior foi vencedora do Melhor Álbum.

No entanto, continuo a sentir que há algum preconceito e que há muita gente que assume que eu, sendo rapariga e fazendo BD, quero envergar pelo místico mundo oriental da manga. Olha, não.
Não nego nem escondo o meu passado sombrio, mas a verdade é que, apesar de no Japão as autoras femininas de BD serem uma grande maioria, no ocidente não é a mesma coisa. Podia agora começar a divagar acerca do peso enorme e da batalha constante que é ser uma mulher no mundo da BD, mas isso seria um drama desnecessário, para além que é tema que dá metros de pano para manga.

Por agora, tudo isto é o que tenho para reflectir. Ainda tenho muito que ler, mas o pouco que já reti vai-me deixar muito para pensar e deu-me imensa vontade de ir desenhar, por isso, é o que vou fazer agora.
Mas primeiro vou à praia.


Thursday, June 11, 2015

I Kill Giants (Graphic Novel) + Festival de Beja


Não é por vontade minha (ou falta dela) que não ando a escrever nada neste blog. A verdade é que ando, como qualquer universitário nesta altura do ano, atarefada com uma data de trabalhos para fazer e pouco tempo me deixam para actividades realmente úteis, interessantes e produtivas - como escrever em blogs.

Mas no meio de tanto trabalho, suor e lágrimas, arranjei um fim de semana para ir com as minhas meninas a Beja, ao festival internacional de BD. Foi a minha 2ª ida ao festival, e foi muito melhor que a primeira, digo-vos já.
A organização está toda de parabéns. Houve uma série de novidades, entre as quais os concertos desenhados, que acho que funcionaram muito bem e trouxeram imensa vida ao festival.
É um festival de pequena dimensão, mas isso não é uma desvantagem - pelo contrário. É graças a isso que acaba por ser muito mais íntimo e confortável que as outras convenções megalómanas. Não sentimos aquele distanciamento hierárquico dos autores de BD, o que acaba por atrair várias faixas etárias e diversos tipos de gente, não só profissionais a afeccionados de BD, mas uma coisa é certa, quem ali está gosta mesmo de Banda Desenhada. Pelo menos, eu sinto isso pelo modo que as pessoas convivem, sentadas a desenhar umas com as outras, pelas famílias que vão juntas (mais os carrinhos de bebé e a avó) ver as exposições, pelos estudantes (como eu!) a mostrar diários gráficos aos seus heróis... É de facto, um ambiente super acolhedor, que recomendo vivamente a qualquer um.

E foi justamente no Festival Internacional de BD de Beja que gastei uma fortuna em BD (claro), entre os quais as Mil Tormentas de Tony Sandoval, um conjunto de fanzines brasileiras, a Entrevista do Sama e o I Kill Giants da dupla Joe Kelly e Ken Nimura.


A minha ideia era voltar a ler isto e só depois escrever alguma coisa sobre o livro, mas a verdade é que gostei tanto tanto tanto que fiquei demasiado entusiasmada e tive que escrever agora.
Li a versão portuguesa traduzida pela Kingpin, e a capa é igual a esta, só que tem o título em português por baixo do inglês. Apesar de estar em português (eu às vezes sou um bocado céptica, visto que há muitas traduções ranhosas) eu adorei.
Se calhar a razão pela qual eu gostei tanto foi por ter sido uma surpresa. Não estava certamente à espera do tipo de enredo, porque à primeira vista parece uma BD de acção, com muitas lutas e gajos de mau feito, mas acabou por ter isso e muito mais, e não da forma que eu espectava.

Não gosto de estragar o final a ninguém, mas se eu não o fizer também não posso explicar porque é que fiquei tão satisfeita com esta leitura, mas mesmo assim, vou tentar não fazê-lo. A verdade é que Barbara,de facto, luta com Gigantes. E são Gigantes enormes, horríveis, mortíferos e grotescos. Mas aquilo que está em questão não é o que ela luta, mas porquê. E será que a força que Barbara procura é apenas força física, ou há coisas que magoam mais que uma marretada?
Pronto, vou ficar por aqui.
Mas uma coisa vos digo, há coisas muito mais assustadoras que gigantes de 30 metros, e a Barbara sabe.

Recomendo-vos esta fantástica obra de arte, especialmente se gostam de chorar.

Saturday, February 7, 2015

This One Summer (graphic novel)


Esta semana estava gastei bom dinheiro em literatura, mais precisamente nesta graphic novel ''This One Summer'', de Jillian e Mariko Tamaki.

Admito que ao início estava um bocado hesitante, não por causa dos desenhos (que são uma delícia, já agora), mas porque tinha medo de me desiludir e não gostar da história.
Felizmente aconteceu o contrário, até fiquei surpreendida pela positiva.

This One Summer relata, na primeira pessoa, um verão passado na habitual casa de férias em Awago Beach, uma pequena aldeia onde a família de Rose passa as férias todos os anos. Windy, a amiga de infância de Rose que é 1 ano e meio mais nova, é quem brinca com ela durante o verão inteiro, desde sempre. Mas, este ano as coisas correm de maneira diferente.
É uma história muito crua, sincera e modesta, acerca daquela altura em que deixamos de ser crianças e passamos para a adolescência. Vários problemas começam a surgir, Rose ganha consciência de outros e as coisas tornam-se tensas e a vida difícil de encarar.

O melhor do livro é sem dúvida a arte, não consigo apontar defeitos. Os desenhos são simples mas expressivos, tal como toda a bd deveria ser. Não tenho linhas a mais nem a menos. As personagens são perfeitamente conseguidas, as expressões e os seus movimentos são flúidos e naturais, as expressões humanas e convincentes. É aquele tipo de desenho que me dá vontade de ir para o estirador o resto da tarde desenhar.

O ritmo da narrativa é como se estivéssemos a rever uma memória escrita num diário duma adolescente. Não há palavras complicadas nem textos pretenciosos a profundidades lamechas. 
Lê-se numa tarde, a beber chá. Perfeito.

No entanto, o final é um pouco desapontante. Esperava um fecho mais emocionante, mais arrebatador. Tirando isso, não tenho muito mais que escrever, apenas que fiquei fã das ilustrações da Jillian e agora vou segui-la no tumblr.

Recomendo.

8.5/10