Sunday, November 23, 2014

Porque é que não estou entusiasmada com o filme do Paper Towns


Acho que toda a gente tem um (ou vários) guilty pleasures na sua vida. No meu caso tenho muitos, e um deles é ter lido (e a certo ponto gostado) de alguns livros do John Green.

Para quem ainda não fez a ligação, John Green é o vlogger que escreveu o famoso 'The Fault in our Stars', a a comovente história de amor entre dois adolescentes com cancro, que mais tarde deu origem a um filme ainda mais popular que o livro (que é o que acontece a maior parte das vezes).
Devo confessar que li o livro e até gostei. Tinha uma leitura descontraída e fácil, tal como eu gosto, e estava escrito do ponto de vista da personagem principal, Hazel, o que dá mais credibilidade e interesse à narrativa.
Porém, não fiquei assim tão emocionada e muito menos me vieram as às lágrimas aos olhos, como aconteceu à maior parte das raparigas (e rapazes..) que o leram.
Ao início, não sabia bem porquê, porque eu até sou bastante chorona e comovo-me com tudo e mais alguma coisa, por isso fez-me confusão ser a única pessoa imune ao livro. Mas depois de pensar um bocado sobre o assunto, apercebi-me que não era por eu não ter cancro e por isso não perceber o que é que as personagens estavam a passar, e daí não conseguir sentir metade do que elas sentiriam. Percebi que não gostava assim tanto do livro porque a história era demasiado embelezada.


Ao contrário do que muita gente acha, eu não tenho nada contra histórias de amor e romance. Até pelo contrário, adoro esse tipo de coisas. Adoro ficar comovida, adoro esperar que um dia me aconteça algo parecido, adoro fantasiar acerca disso, e adoro desenhar BD inspirada nisso. Mas mesmo por isso, é que também gosto que sejam sinceras, e que não sejam apenas chickflicks de fantasia criadas apenas para render à custa do dinheiro de uma data de raparigas e mulheres encalhadas.
O que aconteceu é que, apesar de tudo, fui ver o filme e, ao contrário do que é normal, gostei mais do filme do que do livro, isto é, da abordagem das personagens. No livro, tanto a Hazel como o Augustus são uns pretensiosos snobs que passam a vida a falar de tretas snobs e a criticar livros e tudo e todos. Estão sempre a relembrar em como têm sorte de se terem conhecido, porque eles são os únicos adolescentes decentes e cultos em toda a América. No filme, eles parecem mais humanos e normais, e têm comportamentos mais compreensíveis e humildes de alguém que tem a idade deles e vive na situação deles. Continuam a gostar de ler e de serem cultos, mas fazem isso duma maneira muito menos arrogante e irritante.

Mas, apesar de tudo, apeteceu-me ler mais livros do John Green. Comecei pelo 'Looking for Alaska'. 
Bem, é completamente diferente... ou talvez não. 
O enredo e o tema não têm nada haver: é sobre um rapaz que se apaixona por uma rapariga num colégio interno <- basicamente não há muito mais que isto - portanto, espera-se um livro completamente diferente... ou não.
A primeira coisa que notei de igual foi o facto de também estar escrito na primeira pessoa: e tudo bem até aí, nada de mal; a questão é que o rapazinho fala e pensa exactamente da mesma maneira que a Hazel do The Fault in Our Stars. Se não houvesse uma introdução no primeiro capítulo, eu não destinguiria a Hazel do Miles. Usam as mesmas expressões, falam com os mesmos maneirismos, o mesmo tipo de sarcasmo e sentido de humor, a maneira que narram a história... é um bocado pobre no que toca aos dotes literários do autor. E nesse ponto, fiquei muito desiludida.
Depois a história em si é um monte de clichés. A rapariga misteriosa, rebelde e sensual que atrai o inocente  e inseguro Miles. E depois ele apaixona-se a torto e a direito por ela e ela vai aproveitar-se disso e vai ser uma cabra ao longo do livro todo.
Mas eu li tudo.
E quando acabei, comecei outro (por esta altura, pareço uma masoquista).

Foi aí que fui ler Paper Towns. E para minha surpresa (ou talvez não), o enredo era-me bastante familiar... um rapaz inocente, tímido e inseguro apaixona-se por uma rapariga misteriosa, rebelde e sensual... espera - é igual ao Looking for Alaska.
Margo = Alaska em praticamente tudo: são as duas o esteriotipo de rapariga que todos os rapazes têm uma paixão na sua adolescência. Tirando tudo aquilo que já escrevi acima, ela é também bastante independente, surpreendente e parece que não tem noção disso. Está sempre a meter-se em sarilhos e a lixar a vida, porque a cidade onde mora é demasiado pequena para a sua grande personalidade! E como é óbvio, ela vai ser uma cabra para o Miles também. E esse coitado, vai ser um cãozinho atrás dela o tempo todo, porque o amor e admiração que ele lhe tem é muito maior que a sua fraca auto-estima.
Poupem-me.
E como eu não sou assim tão masoquista, não li mais o Paper Towns. 
Mas fui à Fnac, e estava lá o Ambundance of Katherines. Li umas páginas, a mesma coisa.

E pronto, não quero estar aqui a difamar o John Green, porque eu até gosto dele como Vlogger mas como escritor, para mim é mais uma moda, alguém que arranjou uma receita e agora é só fabricar livros atrás de livros com o mesmo tipo de história cliché que atrai adolescentes e totós como eu.
Daí não ter o minímo interesse para ao filme (e ainda por cima, a Cara Devinadashdaxn (não sei escrever o nome dela) foi escolhida para fazer de Margo e isso para mim é simplesmente... não. 
Mas eu já me conheço, e provavelmente vou ver o filme.




Saturday, November 22, 2014

In Clothes Called Fat (graphic novel)


Quando estava no secundário, tive uma fase exaustiva e obcessiva por Anime e Manga. Li muita manga, consumi muito merch de Anime e fui uma high roler de convenções nipónicas do tipo Iberanimes e Anipops.
Acontece que, tal como toda a gente previa, enjoei de todo esse mundo. Enjoei e fartei-me de tal forma que até agora, não tive vontade de voltar a pegar em nada que me fizesse ler de trás para a frente.

E agora, passados estes anos, decidi voltar a tentar ler manga, mas não podia ser outra vez manga do costume. Já chega de guinchos e gemidos de gajas de 13 anos vestidas de neko maidens e de gajos musculados efeminados, das histórias clichés que não fazem sentido e de personagens estereotipadas e previsíveis; queria encontrar algo que me voltasse a dar fé e vontade para ler manga, algo diferente.
E num dia como todos os outros, fui à BDmania e encontrei este exemplar.

In Clothes Called Fat, uma graphic novel escrita e desenhada por Moyoco Anno (uma artista multifacetada uau) aborda o tema dos distúrbios alimentares e a forma como eles influenciam a nossa vida toda - amorosa, profissional, etc...

A capa é tão deprimente e perturbadora como o seu interior, adianto já.

A história desenrola-se à volta de Noko, que é uma jovem adulta que trabalha numa empresa de sei lá o quê (não apanhei/não me lembro) e passa o tempo a ser provocada e gozada pelas colegas de trabalho devido ao facto de ser tímida, frágil e, acima de tudo, gorda. Noko namora com o mesmo homem há 8 anos, Saito, do qual ela vem a saber ter um caso amoroso com a colega mais antipática lá da empresa. 
Apesar de ter um emprego que detesta, um namorado que se aproveita dela, de passar a vida a ser provocada e humilhada, Noko não faz nada para alterar isso, porque ela assume as coisas são como são e não vale a pena fazer nada. No entando, afoga as mágoas a comer, porque quando come tudo fica bem e os seus problemas desaparecem. 
A certa altura, ela farta-se da vida que tem e passa a acreditar que só irá ser feliz quando for 'magra', quando for uma 'dessas pessoas eleitas'. Então desde o momento em que ela se inscreve numa clínica de emagrecimento até ao final do livro, Noko não só vai perder peso e massa corporal, como também perde a noção da realidade e de sentido crítico sobre ela mesma.
É um livro um bocado violento e puxado, mais por causa do argumento do que pelas imagens desenhadas.

Quanto ao desenho, o estilo está mais perto da manga da velha guarda (antes do século XXI) do que da manga actual. As personagens são muitos estilizadas e por isso às vezes torna-se um pouco difícil de as destingir ao início, mas, ao longo do livro, vamo-nos habituando ao estilo (muito próprio) da autora e torna-se muito mais fácil de separar as coisas. O desenho adequa-se ao tipo de história dramática e crua; é tudo muito áspero, angular, carregado e exagerado mas, ao mesmo tempo, simples e delicado. Às vezes até parece um bocado como um croquis, um esboço.

Mas no geral, gostei. Era mais ou menos aquilo que eu procurava em termos de 'manga alternativa' e nisso não fiquei desiludida.
Para quem gosta de drama pesado e de histórias da vida real que não acabam particularmente bem, é um livro que aconselho.


6.5/10