Avançar para o conteúdo principal

The Nao of Brown (graphic novel)


Quinta feira à tarde tive um ataque misto de ansiedade/nervosismo, e como sempre faço nessas situações, fui às compras. E como tenho a sorte de ter uma fnac perto de mim, foi lá que fui primeiro e também foi lá que desencantei este fantástico livro, edição de capa dura, com mais ou menos 200 páginas de puro prazer visual.

The Nao of Brown é uma graphic novel de Glyn Dillon, que é curiosamente amigo de Jamie Hewllett, o artista e cartoonista por detrás da Tank Girl e dos Gorillaz (o que faz dele um Deus com um lápis na mão).

O enredo é focado na protagonista, Nao, 28 anos, que se descreve a si própria como uma hafu - meia inglesa meia japonesa - que sofre de OCD, mas não é apenas aquela OCD de estar sempre a limpar tudo e a organizar fanáticamente e obcecadamente as massassinhas de letras na canja de galinha; ela tem pensamentos terríveis, macrabos e criminosos, que consequentemente dão-lhe vontade de cometer coisas que ela própria e qualquer pessoa ou autoridade policial condenaria.
Ela vive constantemente escrava dos seus rituais mentais, ao mesmo tempo que frequenta o grupo de budistas ali da zona, numa tentativa mais ou menos sucedida de controlar a sua anxiedade e pensamentos sociopatas. 
Tem uma paixão enorme por anime de culto e brinquedos de vinil, e sonha um dia ela também poder ser ilustradora e conceber os seus próprios brinquedos.
Tudo se intensifica quando ela se apaixona por um homem alcoolico que faz reparações a máquinas de lavar, e ele próprio também tem os seus demónios.

Não quero contar a história toda, apenas digo que gostei, apesar de sentir que vou ter de ler outra vez, porque sinto que ainda não assimilei tudo.

Há várias coisas que me fizeram lembrar do filme da Amélie; a personalidade da Nao (tirando os problemas sociopatas..), a maneira como ela analiza a realidade e o mundo à volta dela, a relacção com o interesse amoroso, até certas expressões faciais... talvez seja porque o tema e a 'lição' acabem por ser os mesmos: pessoas introvertidas e/ou com dificuldades em lidar com a realidade ultrapassam os seus problemas e vencem os seus medos.

Eu acho isso bonito e inspirador, talvez porque me relacciono facilmente. 

Quando à arte e aos desenhos, para mim é o suficiente para ler o livro.
Não consigo apontar um único defeito, tudo e tão delicado e ao mesmo tempo tão expressivo. Tem a quantidade necessária de linhas, e as cores são suaves e a marcação da luz tão bem conseguida, o que resulta num desenho muito leve e luminoso. 
É difícil não ficar com vontade de desenhar depois de olhar para eles durante tanto tempo.

Enfim, acho que foi uma leitura bastante positiva e recomendo a todas as pessoas que gostem de histórias sobre sentimentos e complicações humanas, ou para quem gosta de coisas bem desenhas.

9/10


''The artwork makes me jealous, the storytelling makes me even more jealous and the watercolour painting just pisses me off.'' 
Jamie Hewlett sobre The Nao of Brown








Links úteis:





Comentários

Mensagens populares deste blogue

My Lesbian Experience With Loneliness

Há umas semanas atrás, visitei Coimbra e fui conhecer a Dr. Kartoon, uma livraria especializada em Banda Desenhada. Trouxe de lá dois livros, o Amitié Etroite do Vivés e o My Lesbian Experience With Loneliness, a nova manga autobiográfica de Kabi Nagata. Relativamente à autora, não conhecia nada dela. A razão pela qual decidi comprar o livro, sem quase hesitação, foi porque já tinha ouvido falar dele pelas redes sociais, por ser um tópico sensível e facilmente polémico e que, segundo várias fontes e de acordo com o que lia, era um livro que oferecia uma abordagem muito verdadeira e necessária ao que era falado.
Dessa forma, há duas coisas a separar logo à partida quando for falar deste livro - como há quase sempre, em qualquer livro que falei até agora. E quem diz duas coisas, podem ser mais... MAS, neste caso específico, há o tema, a história e a narrativa e há a sua adaptação a banda desenhada, tendo em conta esse medium em si.
My Lesbian Experience With Loneliness é uma narrativa a…

Grilo Falante #5 - André Pereira

No ano passado, eu e o André fomos ao festival de banda desenhada norte americano Small Press Expo, onde partilhámos uma banca e eu dirigi um workshop. No meio disso, conhecemos pessoalmente a Ivy Atoms, que é a autora do livro que o André escolheu para esta rubrica.


Comecei a pôr likes nos desenhos da Ivy Atoms em 2012; tropecei nela por acaso, acho que no Tumblr,  onde lhe fiz follow imediatamente; dali segui-a até umas outras quantas redes sociais, onde ainda hoje a acompanho.
Impedido pelo Oceano Atlântico de viajar até à costa Oeste americana para folhear em pessoa os zines com que a Ivy ia enchendo bancas em pequenos eventos de edição independente, convenções de anime e encontros de furries, e incapaz de cobrir o preço de transporte exigido para a importação da mercadoria para a Europa, fui acompanhando, do meu galinheiro digital, o desfile de meninas-mágicas e cadelinhas chorosas que a Ivy ia despejando nos seus murais, a par com umas bonecas de edição limitada que, compradas a…

Grilo Falante #7 - Patrícia Furtado

A convidada de hoje é ilustradora e conseguem ver as suas ilustrações em diversos formatos, plataformas, para diferentes públicos e idades. Hoje, Patrícia Furtado escreve-nos sobre um livro de banda desenhada. Aqui seguem as suas palavras sobre Jim Henson's Tale of Sand.




Tenho uma maneira muito particular de apreciar banda desenhada e, confesso, ainda não li alguns dos meus livros preferidos. Coleciono-os, namoro-os, demoro-me a folheá-los, examino as páginas, as imagens, as cores, guardo-os e volto a tirá-los da prateleira. Eventualmente, também os leio, do princípio ao fim. Com tempo. Não é que desvalorize o argumento em relação à arte, afinal aqueles desenhos estão ali porque foram primeiro escritos daquele modo. Mas, por alguma razão, gosto de os saborear assim, de modo fragmentado, como um filme que apanhamos várias vezes a meio, até ao dia em que o vemos todo, de uma assentada.
Isto para dizer que, quando a Mosi me pediu para falar de um livro, pensei logo no maravilhoso “Ji…