Sunday, March 23, 2014

Scott Pilgrim vs O (tão criticado) Filme


Scott Pilgrim vs The World é uma série de 6 comics de Brian Lee O'Maley, e é, sem dúvida, uma das minhas séries preferidas e das que me deu mais gozo ler.
Não só é um conjunto de livros como também tem um filme, com o mesmo nome, e tal como todos os filmes que são feitos a partir de livros/jogos/comics/etc, é alvo de imensas críticas e insultos.

Eu fiz este post não pra criticar ou falar mal, mas para comparar e tentar mais ou menos explicar porque é que gosto imenso de tanto uma versão como a outra.

Em primeiro lugar, tal como é de esperar, o enredo do filme não é completamente igual. Okay, no geral é mais ou menos a mesma coisa, acaba e começa da mesma maneira, mas o desenvolvimento é bastante destorcido e empacotado numa longa metragem de hora e meia, o que é compreensível visto que se fizessem a história toda integralmente, o filme tinha que ter umas 6 horas. O filme foi feito antes de terem acabado a série dos comics, o que justifica que o final da banda desenhada não seja completamente igual ao do do filme e o que acontece um pouco antes também não; quero dizer, justifica todo o argumento do filme.
Há pequenas coisas no argumento do filme que, não considerando más, fogem um bocado ao original, como a relacção do Scott com a chinesa psicótica aka Knives Chau e a personalidade da gaja boa alternativa aka Ramona.
Enquanto no filme a Knives é psicótica até ao desfecho, no livro ela emadurece. Aqueles jogos de vídeo que eles jogavam no filme, nunca aconteceram no livro. E é praticamente isso só.
Quando à Ramona, ela no filme é perfeita, e os poucos defeitos que ela possa ter são completamente ignorados por toda a gente, porque a atitude de femme fatalle durona supera qualquer falha de personalidade. No livro, nem tanto. É uma bêbeda e muitas vezes gosta de se fazer de rainha do drama, logo após de se embebedar; desaparece para não sei onde sem avisar; tem bastantes breakdowns. Credo.

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Depois há aquelas personagens suprimidas, como o pai da Knives, que pronto okay, não é essencial, mas, especialmente, a Lisa. A Lisa, que até tem 2 ou 3 capítulos para ela, é completamente ignorada no filme. Não existe sequer.

Com menos importância, também há aquelas situações no filme em que as personagens ou acções foram alteradas ou fundidas com outras. Confuso? Olhem, por exemplo:


Esta cena do filme, em que a Ramona tem a luta épica contra a Roxy, na verdade, no libro nunca aconteceu. Algumas das falas, nomeadamente aquelas tão conhecidas sobre o ponto secreto atrás do joelho, são retiradas da luta entre Ramona e a... Envy Adams, que acontece no livro, enquanto no filme, é já o Scott e a Roxy.

Estas são as maiores diferenças que consigo encontrar no filme, mas isso não me impediu de gostar imenso dele na mesma. Porquê?

Acho que não havia melhor escolha para os actores, especialmente a Julie. Se a Julie existisse, seria a Audrey Plaza. Todos os outros personagens, estão fantásticos também.
Agora o que torna o filme interessante é a forma como é dinamico e a maneira que foi editado. É fixe como o realizador tentou manter o espírito da banda desenhada, notando assim montes de efeitos alusivos à linguagem dos comics durante o filme. Acho que conseguiu também preservar o humor sarcástico e idiota do Brian Lee O'Maley, porque tive vontade de rir em muitas cenas, especialmente naquelas que eram obviamente transcritas dos livros quase à letra.

A maior parte das pessoas que conheci gosta muito de mandar vir com o filme, com o Michael Cera, e como já falei acima, do enredo. Mas eu justifico tudo da mesma maneira, e mesmo apesar das falhas, admito que gosto imenso do filme.

Acho que tanto um como o outro são prespectivas diferentes da mesma história, e tanto um como outro, são bastante aconselháveis.


Links úteis:
http://projectc.net/scottpilgrim/site.html


Saturday, March 22, 2014

The Nao of Brown (graphic novel)


Quinta feira à tarde tive um ataque misto de ansiedade/nervosismo, e como sempre faço nessas situações, fui às compras. E como tenho a sorte de ter uma fnac perto de mim, foi lá que fui primeiro e também foi lá que desencantei este fantástico livro, edição de capa dura, com mais ou menos 200 páginas de puro prazer visual.

The Nao of Brown é uma graphic novel de Glyn Dillon, que é curiosamente amigo de Jamie Hewllett, o artista e cartoonista por detrás da Tank Girl e dos Gorillaz (o que faz dele um Deus com um lápis na mão).

O enredo é focado na protagonista, Nao, 28 anos, que se descreve a si própria como uma hafu - meia inglesa meia japonesa - que sofre de OCD, mas não é apenas aquela OCD de estar sempre a limpar tudo e a organizar fanáticamente e obcecadamente as massassinhas de letras na canja de galinha; ela tem pensamentos terríveis, macrabos e criminosos, que consequentemente dão-lhe vontade de cometer coisas que ela própria e qualquer pessoa ou autoridade policial condenaria.
Ela vive constantemente escrava dos seus rituais mentais, ao mesmo tempo que frequenta o grupo de budistas ali da zona, numa tentativa mais ou menos sucedida de controlar a sua anxiedade e pensamentos sociopatas. 
Tem uma paixão enorme por anime de culto e brinquedos de vinil, e sonha um dia ela também poder ser ilustradora e conceber os seus próprios brinquedos.
Tudo se intensifica quando ela se apaixona por um homem alcoolico que faz reparações a máquinas de lavar, e ele próprio também tem os seus demónios.

Não quero contar a história toda, apenas digo que gostei, apesar de sentir que vou ter de ler outra vez, porque sinto que ainda não assimilei tudo.

Há várias coisas que me fizeram lembrar do filme da Amélie; a personalidade da Nao (tirando os problemas sociopatas..), a maneira como ela analiza a realidade e o mundo à volta dela, a relacção com o interesse amoroso, até certas expressões faciais... talvez seja porque o tema e a 'lição' acabem por ser os mesmos: pessoas introvertidas e/ou com dificuldades em lidar com a realidade ultrapassam os seus problemas e vencem os seus medos.

Eu acho isso bonito e inspirador, talvez porque me relacciono facilmente. 

Quando à arte e aos desenhos, para mim é o suficiente para ler o livro.
Não consigo apontar um único defeito, tudo e tão delicado e ao mesmo tempo tão expressivo. Tem a quantidade necessária de linhas, e as cores são suaves e a marcação da luz tão bem conseguida, o que resulta num desenho muito leve e luminoso. 
É difícil não ficar com vontade de desenhar depois de olhar para eles durante tanto tempo.

Enfim, acho que foi uma leitura bastante positiva e recomendo a todas as pessoas que gostem de histórias sobre sentimentos e complicações humanas, ou para quem gosta de coisas bem desenhas.

9/10


''The artwork makes me jealous, the storytelling makes me even more jealous and the watercolour painting just pisses me off.'' 
Jamie Hewlett sobre The Nao of Brown








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