Thursday, February 22, 2018

My Lesbian Experience With Loneliness

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Há umas semanas atrás, visitei Coimbra e fui conhecer a Dr. Kartoon, uma livraria especializada em Banda Desenhada. Trouxe de lá dois livros, o Amitié Etroite do Vivés e o My Lesbian Experience With Loneliness, a nova manga autobiográfica de Kabi Nagata.
Relativamente à autora, não conhecia nada dela. A razão pela qual decidi comprar o livro, sem quase hesitação, foi porque já tinha ouvido falar dele pelas redes sociais, por ser um tópico sensível e facilmente polémico e que, segundo várias fontes e de acordo com o que lia, era um livro que oferecia uma abordagem muito verdadeira e necessária ao que era falado.

Dessa forma, há duas coisas a separar logo à partida quando for falar deste livro - como há quase sempre, em qualquer livro que falei até agora. E quem diz duas coisas, podem ser mais... MAS, neste caso específico, há o tema, a história e a narrativa e há a sua adaptação a banda desenhada, tendo em conta esse medium em si.

My Lesbian Experience With Loneliness é uma narrativa autobiográfica de 5 capítulos, contada na primeira pessoa, sobre o processo de ultrapassar a depressão e aprender a gostar de nós mesmo, compreendendo e aceitando a nossa sexualidade, neste caso particular. O livro é exposto num diálogo próximo de um diário juvenil do Clube das Amigas, mas em vez de falar sobre rapazes giros e de NSYNC, fala sobre auto-mutilação, depressão, complexos de inferioridade perante a família e todos os outros, sexualidade (e homosexualidade), prostituição e como tudo isso reverte num final aberto repleto de positividade esperança - porque sim, apesar de ter tudo para dar uma novela deprimente, a escrita da Nagata é inteligentemente humorística e optimista.

Antes de ler, temia que o livro pudesse sortir numa espécie de bíblia de auto comiseração: no entanto, e felizmente, estava bem enganada. Para mim, um dos aspectos mais positivos desta manga é o seu teor didático; didático no sentido em que a constante exposição trata de todos aqueles tópicos sensíveis de forma aberta e despreconceituosa, deixando o leitor à vontade e não com a sensação que está a desvendar um segredo imundo. Mas esse mesmo aspecto positivo é simultaneamente um dos aspectos negativos, no que toca à construção e à linguagem narrativa/sequencial da banda desenhada, mas já lá vamos.
A história começa em flashback. Na primeira página, é-nos logo exposta a situação culminante da narrativa, a mesma ilustração que também está na capa: a protagonista, Nagata, nua com uma expressão aterrorizada, na ponta de uma cama, fitando uma rapariga, também nua, de costas para nós na outra ponta da cama. Esse primeiro contacto, automaticamente, põe-nos no tom que vai definir o resto do livro. A partir daí, Nagata rebobina a cassete e começa por contar o que é que a levou àquela situação, e é nesse primeiro capítulo que ficamos a saber da profunda depressão pela qual a autora estava a passar e como isso afectava a sua vida.
Só no 4º capítulo é que Nagata conhece a rapariga da agência de acompanhantes, e logo de seguida a sua primeira experiência sexual.
No 5º e último capítulo, é-nos explicado em primeira pessoa (como também é ao longo de todo o livro) a motivação e o processo criativo de todo este livro.


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Mais uma vez, não consigo dizer se gostei ou não do livro, e esta análise tenta ser fora desse contexto. O que acontece é que há coisas que me parece que funcionaram bem, enquanto outras nem tanto.
Aquilo que, logo à partida, me chamou negativamente à atenção, foi a construção e organização das pranchas. Não sei se é por causa do passado em webcomic, se é falta de capacidade, ou do que for, mas as pranchas não são propriamente muito interessantes no que toca à composição: não variam muito para além de 4 painéis horizontais, do mesmo tamanho, distribuídos verticalmente pelas páginas. De vez em quanto, 2 desses painéis mergem num só, mas o esquema mantém-se o mesmo. Agora, isto não tem mal nenhum se for resultado de um plano estético; mas, infelizmente, não me parece que seja o caso aqui. Como já disse anteriormente, o livro é constantemente expositivo, o que em banda desenhada não funciona tão bem porque quebra o ritmo (ou melhor, anula a existência dele). Não há momentos de tensão, porque todo o livro está em tensão. Não há silêncio, não há pausa: ela não se cala. O tempo cronológico corre sempre à mesma velocidade e a certa altura, custou-me continuar a ler porque precisava de respirar.
Agora, será que era esse o objectivo? Não vamos esquecer que este livro é sobre uma rapariga que, não só está a tentar superar uma depressão, como é altamente ansiosa e nervosa. Será que esta sensação de adrelina constante faz parte da experiência deste livro? Há quem diga que sim, mas eu continuo a achar que não, simplesmente porque há mais provas de que a autora não sabe propriamente tirar partido da linguagem da banda desenhada. Para além de expositivo, o livro não dá margem ao leitor de interagir com o mesmo. O texto, a maior parte das vezes, é uma tradução literal das imagens, enquanto as imagens também são, consequentemente, uma ilustração directa do texto. Não há margem para sub-textos, interpretações, 2ºs planos, porque a autora narra tudo literalmente e verbalmente explícito, seja o que está a acontecer na história (as acções, o diálogo, etc) seja os próprios pensamentos dela. Nagata usa várias metáforas e analogias ao longo do livro para explicar aquilo que está a sentir, e até essas metáforas são desenhadas e explicadas, literalmente.

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Nesta prancha: na primeira vinheta, a frase da mãe é completamente redundante, no sentido em que não acrescenta nem altera o sentido à imagem. Os últimos dois painéis podiam muito facilmente ser apenas um, suprimindo o do médico e seleccionando algum texto, transpondo-o na vinheta seguinte.
No entanto, parte do conteúdo humorístico surge deste tipo de abordagem. Só que não chega para suportar este história enquanto Banda Desenhada: tudo isto funcionava na mesma se fosse escrito no formato de um romance YA. Como já disse antes, também, no último capítulo, Nagata expõe o processo e a motivação por detrás deste projecto, mas não é preciso chegar aí para perceber que tudo isto é um vomitado catártico, que parte desta necessidade interior de 'mandar cá para fora' toda esta repressão que tem vindo a ser acumulada até aos seus 28 anos, supostamente na esperança que os leitores se emocionem, identifiquem e liguem com esta situação. Ora bem, estamos exactamente na altura certa para isso, visto como toda a gente sabe, a autobiografica, saúde mental e sexualidade são tópicos e formatos que estão cada vez mais a circular de mão dada, não só no espaço da interwebs, como também no mediático.
Se calhar é nesse sentido que o livro tem mais valor: é o tipo de leitura que teria feito muito sentido para uma menina do 9º ano, introvertida, que passa demasiado tempo nos fóruns de Anime e que tem dificuldade em lidar com os colegas na escola. Mas atenção, não estou a falar num tom depreciativo: é só através desta exposição constante que a abertura para falar sobre estes temas de forma carinhosa e emotiva se tornou possível. É de notar que, a prostituta com quem Nagata perde a virginidade, é retratada da forma mais angelical possível, muito longe do retrato ocidental de femme fatalle, senhora da vida, que estamos habituados. Esta acompanhante é uma rapariga simpática, que conversa com Nagata, tomam banho juntas, etc, mas nunca sem deixarmos de esquecer que não é uma namorada, mas uma profissional. Como já foi dito nesta review, a prostituição é retratada com uma dignidade e naturalidade que não é comum, mas que ao mesmo tempo, em vez de ser apenas sensual, é ternurenta, doce e comovente.

Todo este livro acaba por ser um hino ao amor próprio e ao crescimento da auto-estima, tomando como ponto de partida a aceitação de nós mesmos e da nossa sexualidade. O final aberto, que sugere um futuro luminoso e esperançoso, conclui que esta história é apenas o começo duma longa jornada de auto-aprendizagem, o que remete para o valor didático do livro, que é, para mim, o ponto mais positivo, da mesma forma que o Oh Joy! Sex Toy também tira partido da banda desenhada para desmistificar e educar os leitores relativamente a uma sexualidade feliz e saudável. No entanto, a abordagem pela banda desenhada neste segundo caso é por razões puramente pedagógicas ou comercias, no sentido em que os autores escolheram a banda desenhada como um veículo apelativo e popular que mais facilmente chega a um público mais vasto do que um livro escrito chegaria.
Poderemos dizer que My Lesbian Experience With Loneliness é a mesma situação? Talvez, mas nem precisamos de perder muito tempo a pensar nisso, porque, mais uma vez, a própria autora explica todas as suas intenções no último capítulo. 
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Quando Nagata percebe que tem de começar a gostar de si mesma.
Sempre achei que a autobiografia catártica pode ser um bom veículo didático, no sentido em que, também Nagata, parte da sua experiência pessoal para falar de assuntos que afectam muitas outras pessoas e que não são facilmente falados. 
No entanto, já tendo lido outros livros que podem encaixar nesta categoria, como Blankets (Craig Thompson), ou I Never Liked You (Chester Brown), ao contrário destes exemplos, não senti com este livro grande grau de empatia ou ligação: o que não deixa de ser esquisito, visto que tanta exposição e contacto directo com a intimidade da autora deveriam proporcionar isso. Acontece que essa literalidade não me dá margem nenhuma (nem a mim, nem ao leitor) de nos incluírmos na história. A história, narrada e ilustrada incessantemente na primeira pessoa duma forma tão explícita, acabou por criar uma distância entre Nagata e o leitor, em que o segundo é automaticamente remetido para um papel de expectador que pouco ou nada tem a dizer do que está a acontecer. No entanto, este livro vive muito da compaixão e empatia que tenta reproduzir no leitor, mas torna-se difícil quando a adaptação não o permite.
O desenho é simples e pouco característico, a narrativa visual é muito básica e elementar, o que prova que a mediatização do livro deve-se apenas ao tema da história, o que não lhe tira valor, mas deixa muito por desejar.

Thursday, January 18, 2018

Underrated: Avril Lavigne - Make 5 Wishes



Há uns dias, surgiu-me no mural do Facebook um vídeo da Erykah Badu em que lhe pediam para dar opinião acerca de várias coisas, mais propriamente, se ela achava que eram sub ou sobrevalorizadas. Sei que ainda vamos a 16 de Janeiro, mas tenho a certeza que é o melhor vídeo de 2018. De tal forma, motivou-me a por a mão na consciência e repensar todas aquelas coisas que são subvalorizadas e que parecem mesmo más, só que, na verdade, não são.

Não vou falar de coisas sobrevalorizadas: dos filmes dos super heróis, nem dos Harry Potter muito menos de Star Wars - nem sequer estou informada para isso e neste momento sou uma ignorante. 
Não lhe perguntaram sobre BD, porque não? Por isso, achei muito giro embarcar na viagem nostálgica em que a nossa cultura pop actual tem vindo a navegar e reviver algumas das coisas que me marcaram bastante a infância (e de muitas outras pessoas da minha idade) e que mais tarde me deram vergonha ao ponto de as oferecer como prenda de Amigo Secreto a colegas por quem não tinha grande carinho (desculpem-me).

Vou falar de dois livros, que na verdade são uma história dividida em dois volumes, e que provavelmente nem muita gente conhece:


Avril Lavigne Make 5 Wishes



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Este é o melhor exemplo de uma coisa que tem tudo para ser terrivelmente pirosa e puramente comercial, assim como mal feita e desprovida de conteúdo. Vou defender a minha posição no sentido em que este livro (o primeiro volume, porque se trata de dois volumes) foi-me oferecido quando eu tinha cerca de 14 ou 15 anos. O segundo comprei-o eu, mais tarde (guilty). Foi numa fase em que estava a sair da minha febre nipónica do mangá e a descobrir que havia banda desenhada feita noutros continentes, que não era forçosamente Astérix ou Marvel.

Avril Lavigne - Make 5 Wishes, foi uma aposta comercial que decidiu juntar duas coisas que estavam a render imenso dinheiro na altura (2007): Avril Lavigne e Manga. Óbvio, não é?
Mas, à pouco tempo, descobri um podcast (não me lembro onde, já procurei e não encontro mesmo) em que a artista Camilla D'errico revelou o processo por detrás desta magnífica epopeia, o que foi um grande alívio e justificou a razão pela qual eu não posso dizer que não gosto destes livros. Só que é aquele tipo de afirmação que eu jamais poderia dizer publicamente, só se quisesse ser alvo de chacota (não que já não seja).
Continuando e contextualizando: Camilla D'Errico é uma pintora/ilustradora que na altura e ainda hoje vive à custa de desenhos e pinturas de meninas de olhos grandes com animaizinhos em posições sensuais. Tem um estilo e um traço muito próprio, tão próprio que acabou por se tornar numa receita repetitiva, o que me levou a enjoar dela ao fim de algum tempo. Não obstante, em 2007 Camilla D'Errico era a personalização dos meus sonhos e objectivos profissionais e por isso não havia nada que tivesse o nome dela que eu não quisesse. Estes livros só vieram a aumentar isso - ou talvez não.
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Agora com alguma distância e sem distorção emocional, a razão pela qual acredito que estes livros são bons é devido à história. Os desenhos, infelizmente, ficam muito aquem. Mas vamos começar por aí, pela história. Os livros foram escritos por Joshua Dysart que, para quem não sabia - que era o meu caso - é um argumentista que já trabalhou para a Marvel, DC, Dark Horse... e acima de tudo, trabalhou com Mignola em vários números do Hell Boy. Agora, como é que um argumentista que tem este tipo de experiência - que nada tem haver com um universo pop adolescente feminino - acaba por fazer 2 livros sobre uma menina com problemas de auto estima, obcecada com a Avril Lavigne? Não sei, mas aconteceu. Não só aconteceu, como ele acabou por salvar o projecto.
D'Errico só aceitou desenhar Make 5 Wishes se a editora concordasse que Joshua Dysart fosse o argumentista, e no final este golpe de chantagem acabou por surtir efeito. Tanto um como outro, não queriam por as suas reputações em causa, por isso fizeram o melhor possível para desenvolverem um bom projecto. Mas era factual - a premissa incluía redondamente Avril Lavigne e estilo Manga.
A capa foi a parte menos negociável: para chamar à atenção do público e tornar o objecto ainda mais comercial, tinha que indubitavelmente incluir a Avril Lavigne, e é o que acontece no primeiro e no segundo livro.
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Como dá para ver, antes do nome dos autores aparece primeiro Avril Lavigne, que na verdade teve 0 de contribuição para este projecto.

Por outro lado, o conteúdo e a narrativa tinham uma ambiguidade plástica muito mais maleável. 
Quando me ofereceram o primeiro volume, eu, uma rapariga de 14 anos militante do Anipop e dona de todos os álbuns em CD da Avril Lavigne, fiquei automaticamente cativada por ver a cantora na capa, por isso foi uma enorme surpresa quando cheguei ao final do livro e notei que o papel da mesma não era, de todo, protagonista e muito menos tinha alguma coisa haver com a premissa da história.

Dysart e D'Errico conseguiram construir uma história que não era à volta de Avril Lavigne, mas que no entanto usa-a como pano de fundo. A narrativa segue Hannah, uma menina inadaptada e altamente introvertida que segue a vida das pessoas que a rodeiam (a colega da escola, a paixoneta da turma e o professor) através da internet. Há um paradoxo interessante que atualmente é uma das maiores preocupações e temáticas da ficção contemporânea: a falsa intimidade e a distância física vs emocional. Hannah sabia todos os segredos destes personagens, mas do outro lado eles não a conheciam, pois Hannah conversava com cada um através de chatrooms, disfarçada com outras identidades inventadas.
Sendo Hannah uma menina fechada, sem amigos e que ultrapassa uma grande instabilidade familiar, grande parte do seu tempo acaba por ser passado fechada no quarto a interagir com o mundo através do computador e do acesso à internet. Numa noite, um website - make5wishes.com - aparece-lhe num pop up e, hipnoticamente, Hannah responde ao anúncio e acaba por encomendar uma caixa que lhe diz prometer 5 desejos. Quando essa caixa chega, um pequeno diabrete oriental, sem qualquer tento na língua e sem mais demoras, oferece-lhe 5 desejos a cada corno dele que Hannah partir.

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Como já aconteceu várias vezes neste tipo de história, os desejos acabam por não correr como Hannah de facto desejou e, numa espécie de efeito bola de neve, as consequências começam a embrulharem-se umas nas outras e a vida de Hannah acaba por ficar mais caótica do que já era.
Qual é o papel de Avril Lavigne no meio disto tudo? Avril é a amiga imaginária e, ao mesmo tempo, a consciência grilo-falante de Hannah, que vai perdendo protagonismo e intensidade à medida que a história avança. Avril acaba por também ser um reflexo daquilo que se passa na cabeça da menina, no sentido em que no início do primeiro volume (e isto acaba por ser uma referência para os fãs da cantora) Avril ainda adopta o estilo teenager;skater de Sk8ter Boi, uma onda mais juvenil e divertida. À medida que Hannah se torna mais envolvida com o próprio caos que cria, Avril aparece cada vez menos vezes, até que um dia a protagonista dá por falta dela. Quando Avril 'volta', reaparece como a nova versão da cantora (na altura ainda era nova, algures em 2007/2008) num 'look' mais adulto e feminino, menos 'rebelde', bastante diferente daquilo que Hannah estava habituada, ao que ela estranha ao início. Há um breve momento em que Hannah esquece todo o drama e fica feliz com o reaparecimento da amiga imaginária e abraça (literalmente) esse lado novo, esta nova etapa que está a começar: deixou de ser criança e tem de encarar as consequências como uma rapariga grande. No final, Avril Lavigne acaba por não ser mais que uma projecção da personalidade subconsciente de Hannah.

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Não quero fazer uma sinopse nem relatar tudo o que acontece, mas digo que a história é incrivelmente matura para o tipo de livro que parece ser, e não digo isto apenas porque lida com a morte, perca, humilhação ou abandono, mas pela forma como esses temas são expostos e tratados. Não é uma história optimista nem nos promete um final feliz, mas é bem construída ao ponto de incluir temas que são muito específicos da contemporaneidade em que o livro foi criado: a ascensão do mundo virtual, da internet e das novas formas de comunicação (2007 é a era do MySpace), a depressão e a exclusão social - não só do ponto de vista da adolescência, mas no geral. Quase todas, senão todas, as personagens na história são solitárias ou isoladas à sua maneira - o professor que procura um relaccionamento amoroso na internet; a mãe da Hannah que está cada vez mais separada do pai, apesar de viverem na mesma casa e partilharem uma filha, o homem idoso que Hannah é forçada a visitar todas as semanas, devido ao programa de Jovens/Idosos em que a mãe a inscreveu, vive sozinho numa casa enorme, alimentando-se das memórias que tem da juventude e da mulher falecida. 

Parece ridículo, mas se nos desligarmos das circunstâncias que deram à luz estes dois livros e nos focarmos no que resultou dele, é possivel conseguirmos saborear uma boa narrativa. 
Por isso é que é uma pena que os desenhos não sejam bons. Camilla D'Errico tem claramente um estilo e um conforto bem definido nas pinturas, mas quando faz banda desenhada facilmente é denunciada a falta de técnica e de amplitude no traço; as figuras são muito pouco naturais, quase como se fossem todas bonecos de plasticina; há graves problemas anatómicos que se tornam óbvios quanto a autora tem de desenhar certas poses, simular movimento ou situações que nas pinturas nunca tem de fazer; caracterizar pessoas que não sejam raparigas adolescentes é um grande impedimento - no character design do homem idoso torna-se evidente que há pouco à vontade e falta de referências. Os ambientes, a caracterização dos espaços é sempre muito elementar, apenas é desenhado o que é estritamente necessário, por isso muitos dos sítios são desprovidos de personalidade e acabam por ser simplesmente cenários. Apesar de não haver trabalho de textura, as cores e a luminosidade acabam por compensar um pouco todas as outras falhas. O desenho pobre acaba por conseguir sobreviver através da aplicação da cor e da forma como esta molda o ambiente e espírito de cada cena, dando assim a personalidade e caracterização que de outra forma o desenho não conseguiria. Depois, há aquele problema clássico da balonagem ser completamente disconexa com o estilo do desenho. 
Mesmo assim, as cores não são excepcionais. Como o desenho é tão pobre, acabam por ser o elemento gráfico catalisador.

Pelo que pesquisei agora, visto que é difícil encontrar imagens de boa resolução online, o canal de Youtube da Avril Lavigne tem a banda desenhada completa animada no flash, ao som do último album da cantora - o que não recomendo forçosamente. Para fazer o filme, as pranchas foram desconstruídas e as vinhetas reposicionadas para enquandrar o formato de vídeo. Não é uma má adaptação, mas com aquela música a passar por trás acaba por dar uma leitura completamente diferente e muito mais condicionada da história do que na versão normal, impressa.

Ainda vi um ou dois exemplares na fnac, 10 anos mais tarde de ter lido o primeiro.

Agora vou fechar-me no meu quarto a ouvir o Keep Holding On enquanto penso no meu trabalho de mestrado.
Inté!

Tuesday, October 10, 2017

Tesourinhos do Thought Bubble '17


À semelhança do ano passado, este ano voltei ao Thought Bubble Sequential Art Festival, em Leeds, no Reino Unido.
A minha avó (e o ditado) sempre disse: "Nunca voltes a onde foste muito feliz", o que é semi-verdade porque, disclaimer:, apesar de ter sido bastante divertido e bastante produtivo, este ano foi sem dúvida 20x mais cansativo do que o ano passado.
Em 2016, voltei cheia de energia e de pica para ''dar ao mundo a conhecer a minha arte e a BD é a melhor cena do universo". Este ano voltei com uma enorme dor de costas e horas de sono em falta, mas com um sorriso na cara.

Ao contrário do ano anterior, este ano o André convenceu-me a ter banca e isso só por si já torna toda a experiência muito mais intensa, como podem imaginar. Há aquela ideia errada, por vezes, de que m tem banca passa o dia sentado a olhar para cosplayers manhosos, mas, como é obvio, acaba por ser o oposto. Todas as idas à casa de banho são oportunidades para ver o que se está a passar no festival e que nós estamos a perder, porque estamos ali, a vender zines de cãezinhos (no meu caso), e todo este jogo de estar-na-banca-sair-da-banca, é-me muito mais desgastante do que simplesmente passar o dia às voltas em pé. Mas isto sou eu.

Por outro lado, há muita gente que me diz ''há mas o TBL não é só Marvels e Images e coisas assim?'' É relativo. Eu pessoalmente também não sou muito fã desse lado dos comics, mas aquilo que me leva ao TBL é todas as outras coisas fantásticas que também lá estão - apenas um bocado mais escondidas. Porque a verdade é que aquilo é um festival que gere imensos interesses e patrocínios e quem dá dinheiro para que aquilo continue todos os anos (para além da ajuda da câmara) são estas editoras grandes, que põe a programação a andar, os convidados a mexer e muitos dos bilhetes a voar.
Só que, felizmente, ainda há bastante oferta alternativa às grandes massas dos comics e se tivermos um pouco de paciência, conseguimos encontrar BD suficiente para acusar excesso de peso no check in do aeroporto.
Neste post queria falar um bocadinho sobre os meus achados deste ano.


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Começo por estas duas BDs que comprei na banca da ShortBox.
A ShortBox é um serviço curado pela Comics & Cola, em que por cerca de 35 libras por mês, os clientes recebem por correio uma caixinha de cartão com uma selecção de graphic novels, zines e outras publicações do género escolhidas a dedo, tanto de autores jovens e promissores, como de pessoal que já foi nomeado para Ignatz e Eisners e outros títulos pomposos.
A particularidade da ShortBox é que, para além de não haver muitos serviços deste género, é fazerem questão de escolher obras que, doutra forma, não conseguiríamos encontrar noutro lado. Geralmente são publicações limitadas, zines e autopublicações que não chegam às grandes distribuidoras, o que faz com que sejam exemplares muito próprios e muitas vezes exclusivos.
Dito assim até parece um bocado elitista, não é? Só que não.
A ShortBox também tem como objectivo detectar novos talentos e dar-lhes a possibilidade de puderem divulgar e ganhar alguma coisa com o seu trabalho, por isso acaba por ser também uma rampa de lançamento de muito bom gosto.
Por isso, trouxe dois livrinhos de autores diferentes: Daughters, da Bianaca Bagnarelli e Hot Summer Nights de Freddy Carrasco .
O Hot Summer Nights foi um achado brutal. À partida, não conhecia este autor e muito menos o trabalho dele mas fiquei bastante impressionada. Quando fui agora investigar, descobri também que já o seguia nas redes sociais há mais de um ano - típico.
Tem um estilo bastante dinâmico e orgânico que sustenta a narrativa  do conto coming of age de um grupo de pré adolescentes, prestes a entrar no secundário. O ritmo é bastante fluído e a forma como os personagens lidam com o espaço e com a sua representação é visualmente muito interessante.
O Daughters já cai um pouco mais no estilo mainstream cinematográfico: planos pouco dinâmicos geralmente frontais, cores térmicas muito bem combinadas, mas não deixa de ser um desenho muito bom e cativante. O estilo do desenho deste segundo condiz muito bem com o ambiente de suspense e mistério que caracteriza o género desta mini história.

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Daughters - Bianca Bagnarelli

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Hot Summer Nights - Freddy Carrasco
Peow Studios
Dentro do Victoria Hall, fiquei a conhecer esta editora, Avery Hill, a quem comprei Swear Jar de Abe Christie. Se pesquisarem pelo autor, vão dar com uma série de noticias de 2015 sobre um culto satânico, mas não se assustem, não é a mesma pessoa, aparentemente (espero eu). Seja como for, é um livro um bocado 'emo', no sentido em que há uma grande aura melancólica pré-adolescente e um humor negro auto depreciativo bastante evidentes ao longo dos vários capítulos/contos. Mas em termos técnicos não deixa de ser bem executado. O traço tem aquele jeito meio improvisado, como de quem quer dar a entender que 'não está sequer a esforçar-se', apesar do seu tratamento digital e das paletas de cor (muito bem escolhidas). Há todo este espírito de 'desculpem eu existir' e 'querido diário, o dia de hoje está cinzento como a minha alma', que é tolerável até certo ponto.

Swear Jar - Abe Christie

Também passei na banca da Lizz Lunney, ou LizzLizz, visto que já seguia o trabalho dela há algum tempo e queria aproveitar para a conhecer. Comprei-lhe uma zine, Boxlife, que faz parte da sua série Street Dawgz, uma série de zines e comics que acompanham a thug life de depressão, dependência de substâncias e humor negro na vida de 4 caninos vadios, obcecados em proteger a sua preciosa caixa de cartão.


São tiras e gags cómicas bastante divertidas, que tocam em vários temas da actualidade e usufruem de muitas referências ao estilo de vida ocidental contemporâneo - desde a praga de hipsters à dependência das redes sociais.

Por fim, não deste ano mas do ano passado, trouxe o Take It As A Compliment, da Maria Stoian, uma rapariga que conheci no Comixology Marquee em 2016.
Para além de ter trazido também duas zines, Take It As A Compliment é um conjunto de pequenas histórias desenhadas a partir de testemunhos anónimos verdadeiros de assédio sexual. Cada história está desenhada num estilo diferente, seja meio digital ou analógico, o que faz do livro não só interessante em termos de temática mas também como exercício de desenho.

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Take it as a Compliment - Maria Stoian
Singing Dragon

Todo o trabalho da M. Stoian é recomendado, na verdade. O Take it as a Compliment recebeu vários prémios e reconhecimento neste ultimo ano, entre eles, 2016 British Book Design Awards: Best Graphic Novel. mas se lerem o livro não precisam de títulos destes para perceberem que é uma boa obra. Acima de tudo, porque dá uma visão diferente daquela que geralmente é retradada do assédio sexual - é uma coisa que não acontece só a mulheres ou raparigas bonitas, que nem sempre envolve contacto físico e que pode marcar negativamente a vida de alguém de forma irreversível.

Estas foram alguma das coisas que pesquei.
No entanto, ainda estou a ponderar se volto para o ano, mas certamente com banca não deverá ser.
Não deixa de ser uma experiência interessante, apesar de tudo.

Em breve talvez faça reviews individuais dos outros livros que comprei.
Até lá, inté!

Tuesday, September 12, 2017

A Taste of Chlorine - Bastien Vivès (graphic novel)



Vim quebrar o meu longo silêncio ao fim destes meses para falar de uma das minhas últimas leituras, A Taste of Chlorine, do Bastien Vivés.
Escrevi o título em inglês porque li a tradução, é assim que está escrito na capa, mas o nome original é Le goût du chlore.
Como sabem, por alguma razão que não sei qual é, não há muita coisa do Bastien Vivès traduzida para português, ou seja, por alguma razão que também não sei qual é, não costumo encontrar livros dele nas livrarias lisboetas. Uma pessoa erradamente assume que, lá por ele ser um autor premiado e mais não sei quê, que facilmente conseguimos encontrar um exemplar do seu trabalho, mas tem sido difícil.

Felizmente e recentemente, Polina foi editada pela Levoir, dentro da colecção do jornal Público, cuidadosamente em simultâneo com a estreia do homónimo filme, o que finalmente me deu a possibilidade de comprar o livro.
Não sei bem qual era a minha obsessão em ler aquilo. Nunca tinha lido nada dele até então, sem ser pequenas amostras na Internet. No entanto, já seguia o trabalho dele há algum tempo, sempre fui grande fã das suas ilustrações e todos os meus amigos me falavam do quanto eu ia gostar daquilo, por isso, mal o livro foi lançado, fui à tabacaria e comprei.
Comprei o Polina antes do Le gout du chlore - e este pormenor faz a diferença.


Polina - Bastien Vivès (Levoir)

Não vou mentir, eu gostei bastante do livro, mas também é verdade que toda aquela expectativa pode ter amassado um bocadinho as coisas. Seja como for, não me desiludi e rapidamente emprestei o livro, porque queria ter mais alguém com quem poder falar sobre aquilo. E também fiquei feliz, porque, quando comprei Polina, já tinha encomendado o Le Gout du Chlore, portanto era um alívio saber que continuava a achar que tinha feito uma boa escolha.

Apesar de querer bastante ler o Polina (por razões óbvias), tinha muito mais expectativas para o outro, de tal maneira que me esqueci que o Le Goût du Chlore é anterior ao Polina - não que isso seja mau mas, quando finalmente o livro chegou e o pude ler, não deixei de ficar com aquela sensação que fiquei quando fui jogar o Sonic Advance depois de ter jogado o Sonic Advance 3.

Atenção: não quero transmitir a ideia que achei o livro mau ou que fiquei desiludida, porque o que realmente acontece é que se nota o salto que o Vivés deu de uma coisa para a outra, mesmo que não seja muito óbvio. 
Uma coisa tem de ser notada logo à partida acerca do Chlore : a tradução era muito infeliz. Infeliz no sentido que era difícil ser mais fraca - sem querer contar com a escolha, também infeliz, da fonte: o lendário e infame Comic Sans que, apesar do meu namorado defender que em certas situações pode ser tolerável, aquela certamente não era uma delas. Com tanta Internet que já consumi na minha vida, é muito difícil não ser preconceituosa com aquela fonte. No entanto, na versão francesa a fonte é normal, muito parecida com aquela que apanhamos no Polina da Levoir. 6/10.


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 HI. HI.
Por favor, digam-me que não sou a única preconceituosa e que isto de facto é um bocado estranho.
Parece que estão sempre A GRITAR.

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Aqui já não.

Mas falando do que realmente importa, que não é só a fonte e os aspectos técnicos. Le Goût du Chlore é um conto sobre uma possibilidade de amizade, uma história sobre coisas que podiam vir a ser e não são, sem sabermos bem porquê. Um rapaz que, devido a um problema na coluna, é mandado pelo médico começar a praticar natação semanalmente. Na piscina, conhece uma nadadora com quem fica embeiçado e a partir daí ficamos a observara relação deles a crescer, timidamente, de quarta feira em quarta feira, por cada dia que se encontravam.
Não sabemos os nomes deles, quem são, nem de onde são. É o tipo de história em que as personagens, o local e tudo o resto não são o objectivo da narrativa, mas o inverso: são ferramentas para passar uma ideia, uma mensagem - a distância, a aproximação, o nada que existe entre eles e que os separa. Estas personagens anónimas podiam ser qualquer um de nós e acho que é esse tipo de narrativa imersiva que me fez querer ler esta graphic novel.
Num podcast que desencantei na net, Bastien Vives confessa que teve um período da sua vida em que esteve solteiro durante algum tempo, e por isso estava cada vez mais obcecado por histórias de amor, mas não no sentido romântico-final-feliz, mas na química que existe entre duas pessoas, o que faz elas aproximarem-se ou afastarem-se; todo o leque de possibilidades que se abre no momento em que duas pessoas se conhecem pela primeira vez.
Este livro é o reflexo disso, é bastante óbvio, apesar de não o ser.

O que gosto mais no trabalho dele é, evidentemente, a forma como ele consegue simular tão bem o movimento das personagens e toda a vibração que elas transmitem. Vivès estudou animação e nota-se isso no seu trabalho. As personagens estão vivas em todas as vinhetas, os seus movimentos são bastante orgânicos e fluídos, coisas que reflectem alguém que sabe aplicar dinamismo a figuras bidimensionais estáticas. Toda essa ondulação já é bastante bem conseguida no Chlore, mas no Polina está ainda mais apurado. Também, há que referir que ele teve muito mais referências e trabalho neste segundo livro do que no primeiro. Como podem ouvir no podcast que referi, Vivès apenas foi à piscina uma vez para desenhar este livro.

A sensação que me ficou, depois de ter lido ambos, é que Polina é o resultado da maturação do trabalho que já foi começado no Le Goût du Chlore. Apesar de serem histórias diferentes, a narrativa continua a ter muitos pontos de contacto; o final aberto, a ausência de um narrador que nos dá mais liberdade de fazer a nossa própria interpretação da história, toda a poesia, não só no desenho mas também na narrativa.
Também arrisco afirmar que a ausência de cor no Polina ainda dá mais protagonismo à linha e ao traço. A cor na banda desenhada muita vezes acaba por ser decorativa e, consequentemente, distractiva, no entanto não acho que isso se aplique a este autor (como prova disso, recomendo-vos a folhear o Dans Mes Yeux, uma graphic novel impressionante que tive a sorte de ter nas mãos há dois anos no stand da Dr. Kartoon, no AmadoraBD. E não, não li nem comprei, porque a minha forretice é mais forte que os meus vícios.) No Polina, o traço é muito mais expressivo, há variação na pressão e na grossura da linha, há muito mais dramatismo mas também sobriedade.
Não vou mentir, invejo a simplicidade do traço dele e por mais voltas que dê com a minha wacom estou bem longe de conseguir um desenho assim.

Entretanto, fico à espera de ler mais obras deles.
Sei que ele tem umas graphic novels anteriores ao Le Goût du Chlore, mas estão apenas editadas em francês.

Talvez em Leeds.
Inté.

Algo me diz que a versão inglesa do Polina também sofre das mesmas características infelizes do Le Goût du Chlore.



Sunday, January 1, 2017

9 Razões Aceitáveis para ir ao Thought Bubble em Leeds


Antes de mais, boas festas e boas entradas!

Ignorando o facto que não tenho escrito nada, hoje vou falar do festival internacional de BD de Leeds, o Thought Bubble Sequential Art Festival.
Tive o privilégio de poder ter ido à convenção nos passados dias 5 e 6 de Novembro (já foi há meses, eu sei) mas a experiência ainda está muito viva em mim e agora sim consigo fazer uma boa apreciação e justificar-vos porque é que vocês têm mesmo de ir e porque é que eu vou fazer de tudo para lá voltar.

Antes de mais, Leeds é uma cidade britânica que fica a cerca de 1h de Manchester. Muita gente me avisou que nada acontecia lá, e que era ainda mais parada que a Amadora - não é assim TÃO mau. A sensação com que fiquei é que Leeds é uma espécie de centro comercial gigante: nunca vi tantos supermercados concentrados na minha vida.

Voltando ao que interessa,
Apesar do festival começar dia 1 de Novembro, aquilo que move as pessoas, que é a convenção, ocupa apenas os dias 5 e 6. Durante esse fim de semana, 3 pavilhões de bancas de artista, feira de BD e stands tanto amadores como profissionais ficam cheios de visitantes de todo o Reino Unido e até da Europa. Durante os outros dias, haviam pequenas conferências, exposições, mostras de filmes espalhados por vários pontos da cidade, sejam lojas, livrarias, galerias, espaços públicos...
Esperava ter conhecido mais gente de outros países, até portugueses, mas a esmagadora maioria era Inglesa e praticamente todas as pessoas com quem falei e a quem contei que era portuguesa ficaram super impressionadas com o facto de termos vindo de Portugal para Leeds só por causa de BD #truluv.
Portanto, admitindo que foi, provavelmente, o melhor evento de BD que fui, vou tentar convencervos porque é que têm de ir e esperar que a organização do TB me pague uma gratificicação por toda esta publicidade.

1. A convenção é um Artist Alley gigante

Basicamente, consistia em 3 grandes espaços, todos eles cheios de bancas de artista e stands (mais de 400 no total - não consegui apanhar nem metade) - Royal Armouries, New Dock Hall e Comixology Marqee . O ambiente é bastante informal e descontraído, um bocado como a Artist Alley de qualquer outro evento cá em portugal, mas com uma dimensão astronomicamente maior e com artistas/editoras de todos os estilos e de todo o tipo de público. As mesas não têm nenhuma organização específica, portanto, um pouco à semelhança do que aconteceu na primeira edição da Comic Con Portugal, é provável encontrarmos autores bem populares sentados ao lado de estudantes de Belas Artes de Leeds - o que é óptimo e promove ainda mais a comunicação e o contacto entre participantes e visitantes, sendo que...


2. ... É uma boa forma e oportunidade de conhecer pessoas

Devido à proximidade (não só pelas razões do tópico acima, mas também porque chegava a um ponto em que aquilo ficava tão cheio que se tornava impossível estar lá dentro sem andar aos encontrões e a esfregarmo-nos nas outras pessoas), também é bastante fácil estabelecer contactos e trocar ideias com uma série de pessoas diferentes. Recomendo vivamente a quem for ao TB que leve sempre consigo um saquinho com cartões de contacto, portfolios, zines, o que for! porque é uma óptima forma de dar a conhecer também o nosso trabalho e trocá-lo com o de outros artistas, por exemplo. Não só estão artistas nas bancas como também estão editoras, e muitas delas à procura de novas parcerias e projectos. (Estas viagens não podem nem devem ser só turisto, se é que me faço entender).


3. Os Livros são todos MUITO mais baratos.

Se há coisa que vale a pena comprar na convenção do TB é livros, álbuns e livros. Não só porque encontram uma variedade e oferta que dificilmente encontrariam em Portugal, mas essencialmente porque os preços são estupidamente baixos. Por exemplo, consegui comprar um hardcover, cores, A4, que normalmente não custaria menos de 20€ por 9libras. E, naquela altura até compensou porque a Libra estava desvalorizada em relacção ao Euro.


Nota: A maior parte das maquinas de cartão Visa que fornecem nas lojas, que também há em algumas bancas da convenção, dão a possibilidade de optar entre Euros e Libras para o pagamento. Se a Libra continuar desvalorizada, vale a pena optar pagar em libras, a máquina fará a conversão, não pagaremos taxa e ficará mais barato do que se fosse em Euros. Só se paga taxa nas ATM.


4. Existem MUITO mais coisas para além da Manga e Anime

A maior parte das convenções cá em Portugal são dedicadas essencialmente à cultura do Anime e da Manga, o que não é mau, mas, infelizmente, acaba por ser sempre mais do mesmo. À parte da AmadoraBD e do Festival de Beja, é difícil ir a um evento de Banda Desenhada que não seja à volta da venda de merchandise e de Cosplay - que seja. O TB é porreiro porque tem a dimensão da Comic Con Portugal e consegue ser só dedicada a BD, e quando digo BD é mesmo BD e tem um pouco de tudo: desde auto publicação e zines a clássicos da Marvel, graphic novels a manga, Tintin e Peanuts - tudo.
Continua a haver cosplay e 2 ou 3 bancas de merchandise, mas o evento não perde o foco e tema principal - a Banda Desenhada enquanto Sequential Art Form (por mais pomposo que isso soe, é assim que eles lhe chamam).

5. Leeds dá para se fazer toda a pé

Recomendo que guardem 1 dia para visitarem a cidade de Leeds, não que seja o epicentro cultural do Reino Unido, mas é uma cidade com o tamanho ideal para se fazer toda a pé, sem ser assim tão pequena. Fique onde ficar o vosso Hotel, não vai ser preciso gastarem dinheiro em transportes públicos porque tudo fica a 20 minutos (a passo rápido) de tudo. O Hotel onde fiquei, o Ibis Leeds Centre, ficava já nas fronteiras da cidade (eu sei, não joga muito com o nome do Hotel) no lado oposto à localização da convenção do TB. Demorava cerca de 20/30 minutos, a pé até lá, e mesmo de noite fazia-se bem. No entanto, existem muito mais hotéis e hotéis muito mais centrais e se prepararem a viagem com antecedência, não será difícil marcar um quarto no centro.

À parte da convenção que se organiza no mesmo pólo, o TB tem outros eventos espalhados pela cidade, sejam exposições, lançamentos de livros, sessões de autógrafos, exibições de filmes, festas, etc... que, como já referi antes, acontecem ao longo da semana toda do festival.

6. Aproveitem para visitar a Travelling Man

Fonte
A Travelling Man é uma loja especializada em Banda Desenhada situada no centro de Leeds que, apesar de ter um stand na convenção TB, não deixa de valer a pena em ser visitada. Como devem adivinhar, tem uma oferta e uma variedade de catálogo impressionante, que vai desde comics a manga, graphic novels, zines e álbuns de ilustração infantil. A loja parece pequenina e muito aconchegada, mas tem dois pisos, sendo que o primeiro é dedicado a BD e o piso inferior a jogos de RP, jogos de tabuleiro e cartas.
Ah! Se tiverem zines ou livros vossos, podem deixá-los lá para venda, na hora. Os donos são bastante simpáticos e acessíveis e têm um expositor à entrada exclusivo para vender aquilo que autores independentes trazem e oferecem.

Para além da Travelling Man, também há uma Forbidden Planet. É uma loja bem maior, mas foca-se mais em merchandise e cultura pop. No entanto, tem um piso inferior só para BD, maioritariamente Manga e Comics (DCs e Marvels).

7. Vale a pena ir à festa.

Isto digo eu porque sou uma pessoa de festas. Uma das vantagens do TB é a facilidade de expandir toda a nossa rede de contactos e não há melhor forma de o fazer do que a pagar copos ao pessoal - mas não podem ser muitos porque cada cerveja custa, no mínimo, 4 libras (isto não é o Bairro Alto!).
No entanto, a festa que tem acontecido no sábado coincidente com o da convenção, não tem a entrada incluída no bilhete, o que significa que têm um bilhete à parte para a festa (não é muito caro, mas também não inclui nenhuma bebida ou petisco).
Já que a cerveja é tão cara quanto tudo resto, aproveitem para experimentar outras coisas, como por exemplo todas as variedades de cidra que encontrarem. Sendo uma fã de cidra, fiquei a saber que Somersby afinal não é nada de especial. 

A festa este ano foi um enorme sucesso, segundo a organização, e foi feita no Trinity Kitchen, um complexo de restaurantes e bares hipsters na cobertura do centro comercial Trinity Leeds. Eu sei, parece manhoso, mas foi bastante divertido e uma óptima forma de descontrair. Garanto, não há nada melhor do que dançar Britney Spears com gente que, até àquela altura, só existiam na capa de livros de BD e em entrevistas do youtube, 3 horas depois de lhe terem pedido um autógrafo com os joelhos a tremer.

Nota: O que acontece em Leeds, fica em Leeds.

8. Meal deals a 3,99 libras - ou então, jacked potato!

Se há coisa que ficou em conta nesta viagem a Leeds foi a alimentação. Ao contrário das bebidas, que custam os olhos da cara, aparentemente também custam mais do que uma refeição leve! 
Há uma cadeia de comida take away, Greggs, que vendem uma promoção, 'meal deal', que consiste numa sandes/tosta/burrito/wrap/refeição leve tipo go-natural + bebiba e café ou 'sobremesa' (bolo/chocolate/pacote de bolachas) por apenas 3,99 libras! Também encontram meal deals semelhantes noutras cadeias de 'fast food', com boas alternativas ao conceito de fast food que já conhecemos. 
Se querem optar por algo mais típico da terra, têm o clássico fish and chips e as jacked potatoes, que consistem numa grande batata aberta ao meio na qual enfiam recheio (chilli, mayonese com atum, etc) dentro, geralmente servido com batata.
Encontram bastante comida rápida, comida de rua, cafés simpáticos e acolhedores locais com preços simpáticos - isto se não pedirem bebidas! - sem terem que gastar um dinheirão em restaurantes. E garanto-vos, não passei fome em Leeds, muito pelo contrário.

Jacked Potato que se vendia nos dias da convenção, que fico a 5libras.


9. E para o ano vai ser melhor! 

Como se esta edição de 2016 não tivesse sido já bastante boa e nem foi assim à tanto tempo, a organização já começou a organizar a edição de 2017, que será em Setembro em vez de Novembro e, segundo o que prometem, terá uma dimensão ainda maior e uma colaboração muito mais activa por parte da cidade de Leeds em si.
O primeiro convidado já foi confirmado e é Gerard Way, mais conhecido como o vocalista dos My Chemical Romance (a minha pessoa de 2010 está a chorar por dentro)

Se quiserem mais informações, o TB está sempre em actualização através do site e do blog do Wordpress.

Mas já sabem, para que a viagem fique em conta, quanto mais cedo marcarem as passagens e estadias, melhor. Ah, e se não perderem os voos, melhor ainda (falo por experiência própria, não recomendo).

PS: Quero agradecer à Mariana, a minha companheira de viagem, que também forneceu estas fotografias.